                               O ALQUIMISTA
                               PAULO COELHO

     Paulo Coelho  j conhecido
em Portugal devido
s vrias obras publicadas entre ns, de h seis anos para c,
sempre num aliciante ritmo
anual. Traduzido em 28 idiomas e publicado em 6 pases,
este autor frequenta com rara assiduidade as listas de
Best-sellers por esse mundo fora, tendo vendido j vrios
milhes de exemplares. Felizmente,
tem tambm tido uma brilhante presena nas livrarias
portuguesas.
     Alm dos recordes de vendas obtidos ao longo do tempo,
muitos pases foram mais longe e distinguiram-no com prmios
como o prmio cegutor do Ano (Austrlia 1993), o prmio da
National Library Association (ELTA 199), o Grinzane Cavour
(Itlia 1995), o Grande
Prix ces Lectrices de (Frana, 1995), a comenda de Cievaier
cans Orcire des lrts et des ettres (Frana, 1995) e o
prmio Internazional Faiano
(Itlia, 1996).
     Nascido no Rio de Janeiro, em 19, este viriniano
festeja convictamente So Jos. Antes de enveredar pela
malha da narrativa, foi autor e director de teatro, bem como
compositor de sucesso da chamada MPB (Msica Popular.



                                 obras de

                               Paulo COELHO

                    Direco editorial: Mrio de Moura


                                Alquimista

               O Dirio de Um Mago

               BrYzida

               as vaquirias

               Na Margem do Rio piedra

               Eu Sentei e Chorei

               Matu

               O Monte Cinco


                               Paulo Coelho
  Correco grfica: Carlos Reis

  Reviso: Oficina de Letras


  Ilustraes de texto: Joo Batel

  Gravuras arstins: extradas de
  vrias obras do sculo XVII.

Conp: concebida por Carlos Reis sobre
uma gravura extrada do livro Snpierstin
  veteruni philosopltorr<n size doctrinn
  de sumnsn et universnli niedicinn,
  da Bibliothque de 1Arsenal, Paris.

     Na poca acreditava-se que, alm
     dos Quatro Elementos, existia um
     quinto, o ter ou a Quinta Essncia.
     A gravura representa a obteno
     desta a partir dos quatro outros
     elementos (gua, terra, fogo e ar).


     Obs: Optmos por incluir com "
  a continuidade do discurso.


                               O ALQUImiSTA

                               Paulo Coelho

     Edio portuguesa baseada na
edio brasileira da Editora Rocco Lda,

  Rio de Janeiro, Brasil

Copyright (C) 1988 by Paulo Coelho


                                  Para J.
Alquimista que conhece e utiliza
os segredos da Grande Obra.


Direitos para a edio portuguesa
  cedidos pelo Autor 
Editora Pergaminho, Lda.

  Lisboa, Portugal

     1 edio 1990
Vrias reimpresses (1991/92/93/94/95/96)
     2 edio 1996

     ISBN 972-711-079-7



                                 PREFCIO


      importante dizer alguma coisa sobre o facto de

O Alquimista ser um livro simblico, diferente de O
Dirio de um Mago, que foi um trabalho de no-fico.
     Durante onze anos da minha vida estudei Alquimia. A
simples ideia de transformar metais em ouro, ou de descobrir o
Elixir da Longa Vida, j era demasiado fascinante para passar
despercebida a qualquer iniciado em Magia. Confesso que o
Elixir da Longa
Vida me seduzia mais: antes de entender e sentir a
presena de Deus, a ideia de que tudo ia acabar um
dia era desesperadora. De maneira que, ao saber da
possibilidade de conseguir um lquido capaz de
prolongar por muitos anos a minha existncia, resolvi
dedicar-me de corpo e alma ao seu fabrico.
     Era uma poca de grandes transformaes sociais
- o comeo dos anos setenta - e no havia ainda
publicaes srias a respeito de Alquimia. Comecei,
como um dos personagens do livro, a gastar o pouco
dinheiro que tinha na compra de livros importados,
e dedicava muitas horas do meu dia ao estudo da
sua simbologia complicada. Procurei duas ou trs
pessoas no Rio de Janeiro que se dedicavam seriamente  Grande
Obra, e elas recusaram-se a receber-me. Conheci tambm muitas
outras pessoas que se diziam alquimistas, possuam os seus
laboratrios, e
prometiam ensinar-me os segredos da Arte em troca
de verdadeiras fortunas; hoje compreendo que elas
nada sabiam daquilo que pretendiam ensinar.
     Mesmo com toda a minha dedicao, os resultados
eram absolutamente nulos. No acontecia nada do que
os manuais de Alquimia afirmavam na sua complicada
linguagem. Era um sem-fim de smbolos, de drages,
lees, sis, luas e mercrios, e eu tinha sempre a impresso
de estar no caminho errado, porque a linguagem simblica
permite uma gigantesca margem de equvocos.
Em 1973, j desesperado com a ausncia de qualquer
progresso, cometi uma suprema irresponsabilidade.
Naquela poca eu estava contratado pela Secretaria da
Educao de Mato Grosso para dar aulas de teatro nesse
estado, e resolvi utilizar os meus alunos em laboratrios
teatrais que tinham como tema a Tbua da Esmeralda.
Esta atitude, aliada a algumas incurses minhas nas reas
pantanosas da Magia, fizeram com que no ano seguinte
eu viesse a experimentar na prpria carne a verdade do
provrbio: C se fazem, c se pagam. Tudo  minha
volta ruiu por completo.
     Passei os seis anos seguintes da minha vida numa
atitude bastante cptica em relao a tudo o que
dissesse respeito  rea mstica. Neste exlio espiritual,
aprendi muitas coisas importantes: que s aceitamos uma
verdade quando primeiro a negamos do fundo

da alma, que no devemos fugir do nosso prprio destino, e que
a mo de Deus  infinitamente generosa, apesar do Seu rigor.
  Em 1981, conheci RAMe, o meu Mestre, que iria
conduzir-me de volta ao caminho que est traado
para mim. E enquanto ele me treinava nos seus
ensinamentos, voltei a estudar Alquimia por minha
prpria conta. Certa noite, enquanto conversvamos

depois de uma exaustiva sesso de telepatia, perguntei porque
 que a linguagem dos alquimistas era to vaga e to
complicada.
     - Existem trs tipos de alquimistas - disse o meu
Mestre. - Aqueles que so vagos, porque no sabem
do que falam; aqueles que so vagos, porque sabem
do que esto a falar, mas sabem tambm que a linguagem da
Alquimia  uma linguagem dirigida ao corao, e no  razo.
     - E qual  o terceiro tipo? - perguntei.
     - Aqueles que nunca ouviram falar em Alquimia,
mas que conseguiram, atravs das suas vidas, descobrir a Pedra
Filosofal.
     E com isto, o meu Mestre - que pertencia ao segundo tipo
- resolveu dar-me aulas de Alquimia. Descobri que a linguagem
simblica, que tanto me
irritava e me desnorteava, era a nica maneira de
atingir a Alma do Mundo, ou o que Jung chamou de
inconsciente colectivo. Descobri a Lenda Pessoal e
os Sinais de Deus, verdades que o meu raciocnio
intelectual se recusava a aceitar por causa da sua
simplicidade. Descobri que atingir a Grande Obra no
 tarefa de alguns, mas de todos os seres humanos
existentes sobre a face da Terra.  claro que nem
sempre a Grande Obra vem sob a forma de um ovo e
de um frasco com lquido, mas todos ns podemos sem qualquer
sombra de dvida - mergulhar na Alma do Mundo.
     Por isso, O Alquimista  tambm um texto simblico. No
decorrer das suas pginas, alm de transmitir tudo o que
aprendi a propsito, procuro
homenagear grandes escritores que conseguiram
atingir a Linguagem Universal: Hemingway, Blake,
Borges (que tambm utilizou a histria persa para
um dos seus contos), Malba Tahan, entre outros.
     Para completar este extenso prefcio, e ilustrar o
que o meu Mestre queria dizer com o terceiro tipo de
alquimistas, vale a pena recordar uma histria que
ele mesmo me contou no seu laboratrio.
     Nossa Senhora, com o Menino Jesus nos braos,
resolveu descer  Terra e visitar um mosteiro. Orgulhosos,
todos os padres fizeram uma grande fila, e cada um se
apresentava diante da Virgem para prestar a sua homenagem. Um
declamou belos poemas, outro mostrou as suas iluminuras para a
Bblia, um
terceiro disse o nome de todos os santos. E assim por
diante, monge aps monge, cada um homenageou
Nossa Senhora e o Menino Jesus.
     No ltimo lugar da fila, havia um padre, o mais
humilde do convento, que nunca tinha aprendido os
     sbios textos da poca. Os seus pais eram pessoas
     simples, que trabalhavam num velho circo das redondezas,
e tudo o que lhe tinham ensinado era a atirar bolas para o ar
e a fazer alguns malabarismos.
     Quando chegou a sua vez, os outros padres quiseram
encerrar as homenagens, porque o antigo malabarista no tinha
nada de importante para dizer e podia desmoralizar a imagem do
convento. Entretanto, no fundo do seu corao, tambm ele
sentia uma imensa necessidade de dar alguma coisa de si a
Jesus e  Virgem.

     Envergonhado, sentindo o olhar reprovador dos
seus irmos, tirou algumas laranjas do bolso e comeou a
atir-las ao ar, fazendo malabarismos, que era a nica coisa
que sabia fazer.
     Foi s nesse instante que o Menino Jesus sorriu, e
comeou a bater palmas no colo de Nossa Senhora. E
foi para esse padre que a Virgem estendeu os braos,
deixando que ele segurasse um pouco o menino.

                                  O AUTOR


     Seguindo eles pelo caminho, entrou Jesus
numa aldeia, e uma mulher, chamada
Marta, hospedou-o em sua casa.
Tinha esta uma irm, chamada Maria,
a qual se sentou aos ps do Senhor a
ouvir a sua Palavra.

Marta, porm, afadigava-se de um lado
para o outro, ocupada com a lida da casa.
Ento aproximou-se de Jesus e disse:

     - Senhor! No te importas que eu fique
a servir sozinha? Ordena a minha irm
que venha ajudar-me!
     Respondeu-lhe o Senhor:
     - Marta! Marta! Andas inquieta e preocupas-te com muitas
coisas.
     Maria, entretanto, escolheu a melhor parte, e
esta no Lhe ser tirada.

               Lucas, X; 38-42


                                  Prlogo


     O Alquimista pegou num livro que algum na
caravana tinha trazido. O volume estava sem capa,
mas conseguiu identificar o seu autor: Oscar Wilde.
Enquanto folheava as suas pginas, encontrou uma
histria sobre Narciso.
     O Alquimista conhecia a lenda de Narciso, um belo
rapaz que todos os dias ia contemplar a sua prpria
beleza num lago. Estava to fascinado por si mesmo
que certo dia caiu dentro do lago e morreu afogado.
No lugar onde caiu, nasceu uma flor, que chamaram
de narciso.
     Mas no era assim que Oscar Wilde acabava a histria.
     Ele dizia que quando Narciso morreu, vieram as
Oriades - deusas do bosque - e viram o lago
transformado, de um lago de gua doce, num cntaro
de lgrimas salgadas.
     - Por que choras? - perguntaram as Oriades.
     - Choro por Narciso - disse o lago.
     - Ah, no nos espanta que chores por Narciso -- continuaram
elas. - Afinal de contas, apesar de todas

ns sempre corremos atrs dele pelo bosque, tu eras
o nico que tinha a oportunidade de contemplar de
perto a sua beleza.
     - Mas Narciso era belo? - perguntou o lago.
     - Quem mais do que tu poderia saber disso? -- responderam,
surpresas, as Oriades. - Afinal de contas, era nas tuas
margens que ele se debruava todos os dias.
     O lago ficou algum tempo silencioso. Por fim, disse:
     - Eu choro por Narciso, mas nunca tinha percebido
que Narciso era belo.
     Choro por Narciso, porque todas as vezes que ele
se debruava sobre as minhas margens eu podia ver,
no fundo dos seus olhos, a minha prpria beleza
reflectida.


                              PRIMEIRA PARTE


     - Que bela histria - disse o Alquimista.


      O rapaz chamava-se Santiago. Comeava a escurecer quando
chegou com o seu rebanho diante de uma velha igreja
abandonada. O tecto tinha desaparecido h muito tempo, e um
enorme sicmoro crescera no local que antes abrigava a
sacristia.      Resolveu passar a noite ali. Fez com que todas
as ovelhas entrassem pela porta em runas, e ento colocou
algumas tbuas de modo que elas no pudessem fugir durante a
noite. No havia lobos naquela regio, mas certa vez um animal
tinha escapado durante a noite, e ele gastara todo o dia
seguinte a procurar a ovelha desgarrada.      Cobriu o cho
com o seu casaco e deitou-se, usando
o livro que acabara de ler como travesseiro. Lembrou-se, antes
de adormecer, que tinha de comear a ler livros mais grossos:
demoravam mais a acabar e eram
travesseiros mais confortveis durante a noite.
     Ainda estava escuro quando acordou. Olhou para
cima e viu que as estrelas brilhavam atravs do tecto
semidestrudo.
     Queria dormir um pouco mais, pensou ele. Tivera o mesmo
sonho da semana passada e, mais uma vez, acordara antes do
final.
     Levantou-se e tomou um gole de vinho. Depois pegou
no cajado e comeou a acordar as ovelhas que ainda
dormiam. Tinha reparado que, assim que acordava, a
maior parte dos animais tambm comeava a despertar.
Como se houvesse alguma misteriosa energia unindo a
sua vida  vida daquelas ovelhas que h dois anos percorriam
com ele os campos, em busca de gua e alimento. Elas j se
acostumaram tanto a mim que conhecem os
meus horrios, disse em voz baixa. Reflectiu um momento, e
pensou que podia ser tambm o contrrio: ele  que se
acostumara ao horrio das ovelhas.
     Havia certas ovelhas, porm, que demoravam um
pouco mais para se levantar. O rapaz acordou-as uma a
uma com o seu cajado, chamando cada qual pelo seu

nome. Sempre acreditara que as ovelhas eram capazes de
entender o que ele dizia. Por isso costumava s vezes ler
para elas os trechos de livros que o tinham impressionado, ou
falar da solido e da alegria de um pastor no campo,
ou comentar sobre as ltimas novidades que via nas
cidades por onde costumava passar.
     Nos ltimos dois dias, porm, o seu assunto tinha
sido praticamente um s: a menina, filha do comerciante, que
morava na cidade aonde iria chegar da a quatro dias. Estivera
apenas uma vez l, no ano anterior.
O comerciante era dono de uma loja de tecidos, e
gostava sempre de ver as ovelhas tosquiadas na sua
frente, para evitar falsificaes. Um certo amigo tinha-lhe
indicado a loja, e o pastor levou l as suas ovelhas.
     - Preciso de vender alguma l - disse para o comerciante.
    A loja do homem estava cheia, e o comerciante pediu ao
pastor que esperasse at ao entardecer. Ele sentou-se na
calada da loja e tirou um livro do alforje.
     - No sabia que os pastores eram capazes de ler
livros - disse uma voz feminina a seu lado.
     Era uma moa tpica da regio da Andaluzia, com
os cabelos negros escorridos, e os olhos que lembravam
vagamente os antigos conquistadores mouros.
     -  porque as ovelhas ensinam mais do que os livros -
respondeu o rapaz. Ficaram a conversar durante mais de duas
horas. Ela contou-lhe que era filha do comerciante, e falou da
vida na aldeia, onde cada
dia era igual a outro. O pastor falou dos campos da
Andaluzia, das ltimas novidades que viu nas cidades que
visitara. Estava contente por no precisar de conversar sempre
com as ovelhas.
     - Como aprendeste a ler? - perguntou a moa a
certa altura.
     - Como todas as outras pessoas - respondeu o rapaz. - Na
escola.      - E, se sabes ler, ento porque s apenas um
pastor?
     O rapaz deu uma desculpa qualquer para no responder
quela pergunta. Tinha a certeza de que a moa jamais
entenderia. Continuou a contar as suas
histrias de viagem, e os pequenos olhos mouros
abriam-se e fechavam-se de espanto e surpresa. 
medida que o tempo foi passando, o rapaz comeou
a desejar que aquele dia no acabasse nunca, que o
pai da moa ficasse ocupado por muito tempo e o
     mandasse esperar durante trs dias. Percebeu que
     estava sentindo uma coisa que nunca tinha sentido
     antes: vontade de ficar a morar numa nica cidade
     para sempre. Com a menina de cabelos negros, os
     dias nunca seriam iguais.
     Mas o comerciante finalmente chegou e mandou
     que ele tosquiasse quatro ovelhas. Depois, pagou-lhe
     o que era devido, e pediu-lhe que voltasse no ano
     seguinte.

     Agora faltavam apenas quatro dias para chegar de
novo  mesma cidade. Estava excitado e ao mesmo tempo
inseguro: talvez a menina j o tivesse esquecido. Por ali
passavam muitos pastores para vender l.

     - No tem importncia - disse o rapaz para as suas
ovelhas. - Eu tambm conheo outras meninas noutras cidades.
  Mas no fundo do seu corao, ele sabia que tinha
importncia. E que tanto os pastores, como os marinheiros,
como os caixeiros-viajantes, sempre conheciam uma cidade onde
havia algum capaz de fazer com que esquecessem a alegria de
viajar livremente
pelo mundo.

     O dia comeou a raiar e o pastor guiou as ovelhas
em direco ao Sol. Elas nunca precisam de tomar
uma deciso - pensou ele. - Talvez por isso fiquem
sempre junto de mim. A nica necessidade que as
ovelhas sentiam era de gua e de alimento. Enquanto
o rapaz conhecesse os melhores pastos na Andaluzia,
elas seriam sempre suas amigas. Mesmo que os dias
fossem todos iguais, com longas horas arrastando-se
entre o nascer e o pr-do-sol; mesmo que elas jamais
tivessem lido um s livro nas suas curtas vidas, e no
conhecessem a lngua dos homens que contavam as
novidades nas aldeias. Elas estavam contentes com a
gua e o alimento, e isso bastava. Em troca, ofereciam
generosamente a sua l, a sua companhia, e - de vez
em quando - a sua carne.
     Se hoje eu me tornasse um monstro e resolvesse
mat-las uma a uma, s iam perceber depois de quase
todo o rebanho ter sido exterminado, pensou o rapaz. Porque
confiam em mim, e se esqueceram de confiar nos seus prprios
instintos. S porque as
conduzo ao alimento e  gua.

     O rapaz comeou a estranhar os seus prprios pensamentos.
Talvez a igreja, com aquele sicmoro crescendo dentro dela,
fosse mal-assombrada. Tinha feito com que sonhasse um mesmo
sonho pela segunda
vez, e estava a dar-lhe uma sensao de raiva contra
as suas companheiras, sempre to fiis. Bebeu um
pouco do vinho que tinha sobrado do jantar da noite
anterior, e apertou contra o corpo o casaco. Sabia que
dali a algumas horas, com o Sol a pino, o calor seria
to forte que no ia poder conduzir as ovelhas pelo
campo. Era a hora em que toda a Espanha dormia no
vero. O calor durava at  noite, e durante todo este
tempo ele tinha que ficar carregando o casaco. Entretanto,
sempre que pensava reclamar do peso deste, lembrava-se que por
causa dele no tinha sentido frio
de manh.
     Temos que estar sempre preparados para as surpresas do
tempo, pensava ento ele, e sentia-se grato pelo peso do
casaco.
     O casaco tinha um motivo, e o rapaz tambm. Em
dois anos pelas plancies da Andaluzia ele j conhecia
de cor todas as cidades da regio, e esta era a grande
razo da sua vida: viajar. Planeava explicar desta vez
 menina, porque  que um simples pastor sabia ler:
tinha estado at aos dezasseis anos num seminrio.
Seus pais queriam que ele fosse padre e motivo de
orgulho para uma famlia camponesa simples, que

trabalhava apenas para a comida e a gua, como as
suas ovelhas. Estudou latim, espanhol e teologia. Mas
desde criana sonhava conhecer o mundo, e isto era
muito mais importante do que conhecer Deus ou os
pecados dos homens. Certa tarde, ao visitar a famlia,
tinha tomado coragem e dito a seu pai que no queria
ser padre. Queria viajar.
     - Homens de todo o mundo j passaram por esta
aldeia, filho - disse o pai. - Vm em busca de coisas
novas, mas continuam as mesmas pessoas. Vo at ao
morro conhecer o castelo e acham que o passado era
melhor que o presente. Tm cabelos louros ou pele
escura, mas so iguais aos homens da nossa aldeia.
     - Mas no conheo os castelos das terras de onde
eles vm - retrucou o rapaz.
     - Estes homens, quando conhecem os nossos campos e as
nossas mulheres, dizem que gostariam de viver para sempre aqui
- continuou o pai.
     - Quero conhecer as mulheres e as terras de onde
eles vieram - disse o rapaz. - Porque eles nunca ficam
por aqui.
     - Os homens trazem a bolsa cheia de dinheiro - disse mais
uma vez o pai. - Entre ns s os pastores viajam.
     - Ento serei pastor.
     O pai no disse mais nada. No dia seguinte deu-lhe uma
bolsa com trs moedas de ouro espanholas.
     - Achei-as certo dia no campo. Iam ser da Igreja,
como teu dote. Compra o teu rebanho e corre o mundo at
aprender que o nosso castelo  o mais importante, e as nossas
mulheres so as mais belas.      E abenoou-o. Nos olhos do
pai ele leu tambm a
vontade de correr o mundo. Uma vontade que ainda
vivia, apesar das dezenas de anos em que tentou
sepult-la com gua, comida e o mesmo lugar para
dormir toda a noite.


     O horizonte tingiu-se de vermelho, e depois apareceu o
Sol. O rapaz lembrou-se da conversa com o pai e sentiu-se
alegre; tinha j conhecido muitos
castelos e muitas mulheres (mas nenhuma igual quela que o
esperava da a poucos dias). Tinha um casaco, um livro que
podia trocar por outro, e um rebanho
de ovelhas. O mais importante, entretanto,  que todo
o dia realizava o grande sonho da sua vida: viajar.
Quando se cansasse dos campos da Andaluzia, podia
vender as suas ovelhas e tornar-se marinheiro.
Quando se cansasse do mar, teria conhecido muitas
cidades, muitas mulheres, muitas oportunidades de
ser feliz.
     No sei como procuram Deus no seminrio, pensou, enquanto
olhava o Sol que nascia. Sempre que possvel, procurava um
caminho diferente para andar. Nunca tinha estado naquela
igreja antes, apesar de ter passado tantas vezes por ali. O
mundo era
grande e inesgotvel, e se ele deixasse que as ovelhas
o guiassem apenas um pouquinho, ia acabar por
descobrir mais coisas interessantes. O problema 

que elas no se do conta de que esto a percorrer
caminhos novos em cada dia. No percebem que os
pastos mudaram, que as estaes so diferentes, porque apenas
se ocupam com a gua e a comida.
     Talvez seja assim com todos ns, pensou o pastor. Mesmo
comigo, que no penso noutras mulheres desde que conheci a
filha do comerciante.
     Olhou o cu, e pelos seus clculos estaria antes do
almoo em Tarifa. L poderia trocar o seu livro por
um volume mais grosso, encher a garrafa de vinho, e
fazer a barba e cortar o cabelo; tinha que estar pronto
para encontrar a menina, e no queria pensar na
possibilidade de outro pastor ter chegado antes dele,
com mais ovelhas, para pedir a sua mo.
      justamente a possibilidade de realizar um sonho
que torna a vida interessante, reflectiu enquanto
olhava novamente o cu e apressava o passo. Tinha
acabado de se lembrar que em Tarifa morava uma
velha capaz de interpretar sonhos. E de que j tinha
tido um sonho repetido nessa noite.

     A velha conduziu o rapaz a um quarto no fundo
da casa, separado da sala por uma cortina feita de
tiras de plstico colorido. L dentro havia uma mesa,
uma imagem do Sagrado Corao de Jesus, e duas
cadeiras.
     A velha sentou-se e pediu-lhe que fizesse o mesmo.
Depois segurou as duas mos do rapaz e rezou baixinho.
     Parecia uma reza cigana. O rapaz j tinha encontrado
muitos ciganos pelo caminho; eles viajavam e enquanto o faziam
no cuidavam de ovelhas. As
pessoas diziam que a vida de um cigano era sempre
enganar os outros. Diziam tambm que eles tinham
pacto com o demnio, e que raptavam crianas para
servirem de escravas nos seus misteriosos acampamentos. Quando
era pequeno, o rapaz morria de medo de ser raptado pelos
ciganos, e este temor antigo voltou enquanto a velha lhe
segurava as mos.
     Mas existe a imagem do Sagrado Corao de Jesus,
pensou ele, procurando ficar mais calmo. No queria que
as suas mos comeassem a tremer e a velha percebesse
o seu medo. Rezou um Pai-Nosso em silncio.
     - Que interessante - disse a velha, sem tirar os
olhos das mos do rapaz. E voltou a ficar quieta.
     O rapaz estava a ficar nervoso. As suas mos comeavam
involuntariamente a tremer, e a velha percebeu. Ele puxou as
mos rapidamente.
     - No vim aqui para ler a sina - disse, j arrependido de
ter entrado naquela casa. Pensou por um
momento que era melhor pagar a consulta e ir-se embora sem
saber de nada. Estava dando importncia demais
a um sonho repetido.
     - Vieste saber de sonhos - disse a velha. - E os
sonhos so a linguagem de Deus. Quando ele fala a
linguagem do mundo, eu posso interpretar. Mas se
ele falar a linguagem da sua alma, s tu podes
entender. E vou cobrar a consulta de qualquer maneira.
     Mais um truque, pensou o rapaz. No entanto,

resolveu arriscar. Um pastor corre sempre o risco dos
lobos ou da seca, e  isto que faz a profisso de pastor
mais excitante.
     - Tive o mesmo sonho duas vezes seguidas - disse.
- Sonhei que estava num pasto com as minhas ovelhas
quando aparecia uma criana, e comeava a brincar
com os animais. No gosto que mexam nas minhas
ovelhas, elas ficam com medo de estranhos. Mas as
crianas conseguem sempre mexer nos animais sem
que eles se assustem. No sei porqu. No sei como
os animais sabem a idade dos seres humanos.
     - Volta para o teu sonho - disse a velha. - Tenho
     uma panela ao lume. Alm disso tu tens pouco dinheiro e
no podes tomar todo o meu tempo.
     - A criana continuava a brincar com as ovelhas
durante algum tempo - continuou o rapaz, um pouco
constrangido. - E de repente, pegava-me nas mos e
levava-me at s Pirmides do Egipto.
     O rapaz esperou um pouco para ver se a velha
sabia o que eram as Pirmides do Egipto. Mas a velha
ficou calada.
     - Ento, nas Pirmides do Egipto, - ele proferiu
estas ltimas palavras lentamente, para que a velha
pudesse entender bem - a criana dizia-me se vieres
at aqui, vais encontrar um tesouro escondido. E
quando ela me foi mostrar o local exacto, eu acordei.
De ambas as vezes.
     A velha continuou em silncio por algum tempo.
Depois tornou a pegar nas mos do rapaz e a estud-las
atentamente.
     - No te vou cobrar nada agora - disse a
velha - Mas quero um dcimo do tesouro, se o encontrares.
    O rapaz riu. De felicidade. Ento iria agora economizar o
pouco dinheiro que tinha, por causa de um sonho que falava em
tesouros escondidos! A velha
devia ser mesmo uma cigana - os ciganos so burros.
     - Ento interprete o sonho - pediu o rapaz.
     - Primeiro jura. Jura que me vais dar a dcima parte
do teu tesouro em troca do que eu te disser.
     O rapaz jurou. A velha pediu que ele repetisse o
juramento olhando para a imagem do Sagrado Corao de Jesus.
     -  um sonho da Linguagem do Mundo - disse
ela. - Posso interpret-lo, e  uma interpretao muito
difcil. Por isso acho que mereo uma parte do teu achado. E a
interpretao  esta: deves ir at s Pirmides do Egipto.
Nunca ouvi falar delas, mas se foi uma criana que tas
mostrou,  porque existem. L
encontrars um tesouro que te tornar rico.
     O rapaz ficou surpreso, e depois irritado. No precisava
de ter procurado a velha para isto. Por fim lembrou-se de que
no estava pagando nada.
     - Para isto eu no precisava de perder o meu tempo
- disse.
     - Por isso te disse que o teu sonho era difcil. As
coisas simples so as mais extraordinrias, e s os
sbios conseguem v-las. J que no sou uma sbia,
tenho que conhecer outras artes como a leitura das
mos.

     - E como vou chegar at ao Egipto?
     - Eu s interpreto sonhos. No sei transform-los
em realidade. Por isso tenho que viver do que as
minhas filhas me do.
     - E se eu no chegar at ao Egipto?
     - Fico sem pagamento. No ser a primeira vez.
     E a velha no disse mais nada. Pediu que o rapaz
sasse, pois j tinha perdido muito tempo com ele.
     O rapaz saiu decepcionado e decidido a nunca
mais acreditar em sonhos. Lembrou-se de que tinha
vrias providncias a tomar: foi ao armazm arranjar
alguma comida, trocou o seu livro por um livro mais
grosso, e sentou-se num banco da praa para saborear
o vinho novo que tinha comprado. Estava um dia
quente, e o vinho, por um desses mistrios insondveis,
conseguia refrescar um pouco o seu corpo. As ovelhas estavam 
entrada da cidade, no estbulo de
um novo amigo seu. Conhecia muita gente por aquelas
bandas - e por isso gostava de viajar. A gente acaba
sempre por fazer amigos novos, e sem a necessidade
de ficar com eles dia aps dia. Quando vemos sempre
as mesmas pessoas - e isto acontecia no seminrio - acabamos
por considerar que elas fazem parte das nossas vidas. E como
elas fazem parte das nossas vidas,
passam tambm a querer modificar as nossas vidas. E
se ns no formos como elas esperam, ficam chateadas.
Porque todas as pessoas tm a noo exacta de como
devemos viver a nossa vida.
     E nunca tm a noo de como devem viver as suas
prprias vidas. Como a mulher dos sonhos, que no
sabia transform-los em realidade.
     Resolveu esperar que o Sol descesse um pouco,
antes de seguir, com as suas ovelhas em direco ao
campo. Da a trs dias iria estar com a filha do comerciante.
   Comeou a ler o livro que tinha conseguido do padre de
Tarifa. Era um livro grosso que falava de um enterro logo na
primeira pgina. Alm disso, o nome
dos personagens era complicadssimo. Se algum dia
escrevesse um livro, pensou ele, ia colocar um personagem a
aparecer de cada vez, para que os leitores no tivessem que
decorar todos os nomes simultaneamente.
     Quando conseguiu concentrar-se um pouco na leitura, - e
era boa, porque falava de um enterro na neve, o que lhe
transmitia uma sensao de frio debaixo
daquele imenso Sol - um velho sentou-se a seu lado
e comeou a puxar conversa.
     - O que esto eles a fazer? - perguntou o velho,
apontando para as pessoas da praa.
     - A trabalhar - respondeu o rapaz, secamente, e
voltou a fingir que estava concentrado na leitura. Na
verdade, estava a pensar em tosquiar as ovelhas 
frente da filha do comerciante, para ela se certificar
de como ele era capaz de fazer coisas interessantes.
J tinha imaginado esta cena uma poro de vezes;
em todas elas a menina ficava deslumbrada, quando
ele comeava a explicar-lhe que as ovelhas devem
ser tosquiadas de trs para a frente. Tambm tentava
lembrar-se de algumas boas histrias para lhe contar

     enquanto tosquiava as ovelhas. A maior parte tinha-as
lido nos livros, mas iria cont-las como se as tivesse vivido
pessoalmente. Ela nunca perceberia a diferena, porque no
sabia ler livros.
     O velho, entretanto, insistiu. Disse que estava cansado,
com sede, e pediu um gole de vinho ao rapaz. O rapaz ofereceu
a sua garrafa; talvez o velho o deixasse tranquilo.      Mas o
velho queria conversar, de qualquer maneira. Perguntou que
livro o rapaz estava a ler. Ele pensou em ser rude e mudar de
banco, mas o pai tinha-lhe ensinado o respeito pelos mais
velhos. Ento estendeu o livro ao velho, por duas razes: a
primeira  que no sabia pronunciar o ttulo, e a segunda era
que, se o velho no soubesse ler, ia ele mesmo mudar
de banco para no se sentir humilhado.
     - Humm. - disse o velho, mirando o volume por
todos os lados, como se fosse um objecto estranho -  um livro
importante, mas muito chato.
     O rapaz ficou surpreendido. O velho tambm lia,
e j lera aquele livro. E se o livro era chato como ele
dizia, ainda havia tempo de trocar por outro.
     -  um livro que fala do que quase todos os livros
falam - continuou o velho. - Da incapacidade que as
pessoas tm de escolher o seu prprio destino. E
termina fazendo com que todo o mundo acredite na
maior mentira do mundo.
     - E qual  a maior mentira do mundo? - indagou
surpreso o rapaz.
     -  esta: em determinado momento da nossa existncia,
perdemos o controlo das nossas vidas, e ela passa a ser
governada pelo destino. Esta  a maior
mentira do mundo.
     - Comigo no aconteceu isso - disse o rapaz. - Queriam
que eu fosse padre, e eu resolvi ser pastor.
     - Assim  melhor - disse o velho. -  porque gostas
de viajar.
     Ele adivinhou o meu pensamento, reflectiu o rapaz. O
velho, entretanto, folheava o livro grosso, sem a menor
inteno de devolv-lo. O rapaz notou que
ele vestia uma roupa estranha; parecia um rabe, o
que no era raro naquela regio. A frica ficava
apenas a algumas horas de Tarifa; era s cruzar o
pequeno estreito num barco. Muitas vezes apareciam
rabes na cidade, fazendo compras e rezando oraes
estranhas vrias vezes por dia.
     - De onde  o senhor? - perguntou.
     - De muitas partes.
     - Ningum pode ser de muitas partes - disse o
rapaz. - Eu sou um pastor e vou a muitas partes, mas
sou de um nico lugar, de uma cidade perto de um
castelo antigo. Foi a que nasci.
     - Ento podemos dizer que eu nasci em Salm.
     O rapaz no sabia onde ficava Salm, mas no quis
perguntar para no se sentir humilhado com a sua
prpria ignorncia. Ficou mais algum tempo a olhar a praa.
As pessoas iam e vinham, e pareciam muito ocupadas.
     - Como est Salm? - perguntou o rapaz, procurando alguma
pista.
     - Como sempre esteve.

     Ainda no era uma pista. Mas sabia que Salm no
ficava na Andaluzia. Seno, ele j a teria conhecido.
     - E o que faz o senhor em Salm? - insistiu.
     - O que fao em Salm? - o velho pela primeira
vez deu uma boa gargalhada. - Ora, que pergunta,
eu sou o Rei de Salm!
     As pessoas dizem coisas muito estranhas, pensou o
rapaz. s vezes  melhor estar com as ovelhas, que so
caladas, e apenas procuram alimento e gua. Ou 
melhor estar com os livros, que contam histrias
incrveis sempre nas horas em que a gente as quer ouvir.
Mas quando falamos com as pessoas, elas dizem certas
coisas e ficamos sem saber como continuar a conversa.
     - O meu nome  Melquisedec - disse o velho. - Quantas
ovelhas tens?
     - As suficientes - respondeu o rapaz. O velho
estava a querer saber demais sobre a sua vida.
     - Ento estamos diante de um problema. No
posso ajudar-te enquanto achares que tens ovelhas
suficientes.
     O rapaz irritou-se. No estava a pedir ajuda. O velho 
que tinha pedido vinho, conversa e interessava-se agora pelo
seu livro.
     - Devolva-me o livro - disse. - Tenho que ir buscar
as minhas ovelhas e seguir o meu caminho.
     - D-me um dcimo das tuas ovelhas - disse o
velho. - E eu ensino-te como chegar ao tesouro
escondido.

     O rapaz voltou ento a lembrar-se do sonho, e de
repente tudo ficou claro. A velha no tinha cobrado
nada, mas o velho - que era talvez seu marido - ia
conseguir arrancar muito mais dinheiro em troca de
uma informao que no existia. O velho devia tambm ser
cigano.      Entretanto, antes que o rapaz dissesse qualquer
coisa, o velho abaixou-se, pegou num graveto, e comeou a
escrever na areia da praa. Quando se baixou, alguma coisa
brilhou dentro do seu peito, com tanta intensidade que quase
cegou o rapaz. Mas num
movimento demasiado rpido para algum da sua
idade, tornou a cobrir o brilho com o manto. Os olhos
do rapaz voltaram ao normal e ele pde enxergar o
que o velho estava a escrever.
     Na areia da praa principal da pequena cidade,
leu o nome de seu pai e de sua me. Leu a histria da
sua vida at quele momento, as brincadeiras de infncia,
as noites frias do seminrio. Leu o nome da
filha do comerciante, que ele nem sabia. Leu coisas
que jamais contara a algum, como o dia em que
roubou a arma do pai para matar veados, ou a sua
primeira e solitria experincia sexual.

     Sou o Rei de Salm, dissera o velho.
     - Porque  que um rei conversa com um pastor? -- perguntou o
rapaz, envergonhado e admiradssimo.
     - Existem vrias razes. Mas vamos dizer que a
mais importante  que tenhas sido capaz de cumprir

a tua Lenda Pessoal.
     O rapaz no sabia o que era a Lenda Pessoal.
     -  aquilo que sempre se desejou fazer. Todas as
pessoas, no comeo da juventude, sabem qual  a sua
Lenda Pessoal. Nessa altura da vida, tudo  claro,
tudo  possvel, e elas no tm medo de sonhar e desejar tudo
aquilo que gostariam de ver realizar-se nas suas vidas.
Entretanto,  medida que o tempo vai
passando, uma misteriosa fora comea a tentar provar que 
impossvel realizar a Lenda Pessoal.
     O que o velho estava a dizer no fazia muito sentido para
o rapaz. Mas ele queria saber o que eram as foras
misteriosas; a filha do comerciante ia ficar
boquiaberta com isto.
     - So as foras que parecem ruins, mas na verdade
esto a ensinar-nos como realizar a nossa Lenda
Pessoal. Esto a preparar o nosso esprito e a nossa
vontade, porque existe uma grande verdade neste
planeta: seja quem for ou o que faa, quando se quer
com vontade alguma coisa,  porque esse desejo
nasceu na alma do Universo.  a sua misso na Terra.
     - Mesmo que seja apenas viajar? Ou casar com a
filha de um comerciante de tecidos?
     - Ou procurar um tesouro. A Alma do Mundo 
alimentada pela felicidade das pessoas. Ou pela
infelicidade, inveja, cime. Cumprir a sua Lenda
Pessoal  a nica obrigao dos homens. Tudo  uma
coisa s. E quando algum quer alguma coisa, todo o
Universo conspira para que se realize esse seu desejo.
     Durante algum tempo ficaram em silncio, olhando
     a praa e as pessoas. Foi o velho quem falou primeiro.
     - Porque  que guardas ovelhas?
     - Porque gosto de viajar.
     Ele apontou um vendedor de pipocas, com a sua
carrocinha vermelha, que estava num canto da praa.
     - Aquele vendedor tambm sempre desejou viajar,
quando era criana. Mas preferiu comprar uma
carrocinha de pipocas, juntar dinheiro durante anos.
Quando estiver velho, vai passar um ms em frica.
Nunca entendeu que a gente tem sempre condies
de fazer o que sonha.
     - Devia ter escolhido ser um pastor - pensou em
voz alta o rapaz.
     - Ele pensou nisso - disse o velho. - Mas os vendedores
de pipocas so mais importantes que os pastores.
Os vendedores de pipocas tm uma casa, enquanto que os
pastores dormem ao relento. As pessoas preferem casar as suas
filhas com vendedores de pipocas do que com pastores.
     O rapaz sentiu uma pontada no corao, pensando
na filha do comerciante. Na cidade dela devia haver
um vendedor de pipocas.
     - Enfim, o que as pessoas pensam sobre vendedores de
pipocas e sobre pastores passa a ser mais importante para elas
que a Lenda Pessoal.      O velho folheou o livro, e
distraiu-se lendo uma
pgina. O rapaz esperou um pouco, e interrompeu-o
da mesma maneira como ele o tinha interrompido.
     - Porque  que o senhor me diz tais coisas?

     - Porque tentas viver a tua Lenda Pessoal. E ests
a ponto de renunciar a ela.
     - E o senhor aparece sempre na hora certa?
     - Nem sempre desta forma, mas nunca deixei de
aparecer. s vezes apareo sob a forma de uma boa
sada, uma boa ideia. Outras vezes, num momento
crucial, fao as coisas ficarem mais fceis. E assim por
diante: mas a maior parte das pessoas no nota isso.
     O velho contou que na semana anterior tinha sido
forado a aparecer a um garimpeiro sob a forma de
uma pedra. O garimpeiro tinha largado tudo para ir
em busca de esmeraldas. Durante cinco anos trabalhou
num rio, e tinha quebrado novecentas e noventa e nove
mil e novecentas e noventa e nove pedras em busca
de uma esmeralda. Nessa altura, o garimpeiro pensou
em desistir, e s faltava uma pedra - apenas UMA
PEDRA - para ele descobrir a sua esmeralda. Como
tinha sido um homem que apostara na sua Lenda Pessoal, o velho
resolveu intervir. Transformou-se numa pedra que rolou aos ps
do garimpeiro. Este, com a
raiva e a frustrao dos cinco anos perdidos, atirou a
pedra para longe. Mas atirou-a com tanta fora que
ela bateu noutra pedra e quebrou-se mostrando a mais
bela esmeralda do mundo.
     - As pessoas aprendem muito cedo a sua razo de
viver - disse o velho com uma certa amargura nos
olhos. - Talvez seja por isso que elas desistem to
cedo tambm. Mas assim  o mundo.
     Ento o rapaz lembrou-se que a conversa tinha comeado
com o tesouro escondido.      - Os tesouros so levantados da
terra pela torrente
de gua, e enterrados por estas mesmas enchentes - disse o
velho. - Se quiseres saber sobre o teu tesouro, ters que me
ceder um dcimo das tuas ovelhas.
     - E no serve um dcimo do tesouro?
     O velho ficou decepcionado.
     - Se comeares a prometer o que ainda no tens,
vais perder a vontade de consegui-lo.
     O rapaz ento contou que tinha prometido um dcimo do
tesouro  cigana.
     - Os ciganos so espertos - suspirou o velho. - De
qualquer maneira  bom aprender que tudo na vida tem
um preo.  isso que os Guerreiros da Luz tentam ensinar.
     O velho devolveu o livro ao rapaz.
     - Amanh, a esta mesma hora, traz-me um dcimo
do teu rebanho. Eu ensinar-te-ei como conseguir o
tesouro escondido. Boa tarde.
     E desapareceu numa das esquinas da praa.
     O rapaz tentou retomar a leitura, mas no conseguiu
concentrar-se mais. Estava agitado e tenso, porque sabia que o
velho falava a verdade. Foi at ao
vendedor de pipocas e comprou um saco delas,
enquanto pensava se devia ou no contar-lhe o que o
velho dissera. s vezes  melhor deixar as coisas
como esto, pensou o rapaz, e ficou calado. Se dissesse algo,
o vendedor ia ficar trs dias pensando em largar tudo, mas ele
estava j muito acostumado com
a sua carrocinha.

     Ele podia evitar este sofrimento ao vendedor de
pipocas. Comeou a andar sem rumo pela cidade, e
foi at ao porto. Havia ali um pequeno prdio, e no
prdio havia uma janelinha onde as pessoas compravam passagens
para frica. O Egipto ficava em frica.
     - Quer alguma coisa? - perguntou o sujeito do
guich.
     - Talvez amanh - disse o rapaz afastando-se. Se
vendesse apenas uma ovelha podia chegar at ao
outro lado do estreito. Era uma ideia que o apavorava.

     Mais um sonhador - disse o sujeito do guich ao
seu assistente, enquanto o rapaz se afastava. - No
tem dinheiro para viajar.

     Quando estava no guich, o rapaz lembrara-se das
suas ovelhas, e sentiu medo de voltar para junto delas.
Tinha passado dois anos com elas e no decurso desses
anos aprendera tudo sobre a arte do pastoreio: sabia
tosquiar, cuidar das ovelhas grvidas, proteger os
animais dos lobos. Conhecia todos os campos e pastos
da Andaluzia. Conhecia o preo justo de comprar e
vender cada um dos seus animais.
     Resolveu voltar ao estbulo do seu amigo pelo
caminho mais longo. A cidade tambm tinha um
castelo, e ele resolveu subir a rampa de pedra e sentar-se
numa das suas muralhas. L em cima ele podia ver a frica.
Algum, certa vez, explicara-lhe que por
ali tinham chegado os mouros, que ocuparam durante tantos anos
quase toda a Espanha. O rapaz detestava os mouros. Eles  que
tinham trazido os ciganos.      De l podia ver tambm quase
toda a cidade, inclusive a praa onde tinha conversado com o
velho.      Maldita a hora em que encontrei este velho, pensou
ele. Tinha ido apenas procurar uma mulher que interpretasse os
sonhos. Nem a mulher nem o velho
ligavam qualquer importncia ao facto de ele ser
pastor. Eram pessoas solitrias, que j no acreditavam mais
na vida, e no entendiam que os pastores acabam por ficar
presos s suas ovelhas. Conhecia
em detalhe cada uma delas: sabia qual mancava, qual
iria dar cria da a dois meses, e quais eram as mais
preguiosas. Sabia tambm como tosqui-las, e como
mat-las. Se resolvesse partir, elas sofreriam.
     Um vento comeou a soprar. Conhecia aquele vento: as
pessoas chamavam-lhe de Levante, porque com este vento
chegaram tambm as hordas de infiis. At
conhecer Tarifa, nunca tinha pensado que a frica
estava to perto. Isto era um grande perigo: os mouros
poderiam invadir o pas novamente.      O Levante comeou a
soprar mais forte. Estou entre
as ovelhas e o tesouro, pensava o rapaz. Tinha que
decidir-se entre uma coisa a que se tinha acostumado
e uma coisa que gostaria de ter. Havia tambm a filha
do comerciante, mas ela no era to importante como
as ovelhas, porque no dependia dele. Talvez nem
sequer se lembrasse dele. Teve a certeza de que, se
no aparecesse da a dois dias, a menina no iria notar;
para ela todos os dias eram iguais, e quando todos os

dias ficam iguais  porque as pessoas deixaram de
perceber as coisas boas que aparecem nas suas vidas
sempre que o Sol cruza o cu.
     Eu deixei o meu pai, a minha me e o castelo da
minha cidade. Eles acostumaram-se e eu acostumei-me. As
ovelhas tambm vo acostumar-se com a minha falta, disse para
si mesmo.      De l de cima olhou a praa. O vendedor de
pipocas continuava a vender as suas pipocas. Um jovem casal
sentou-se no banco onde ele tinha conversado
com o velho, e deram um longo beijo.
     O vendedor de pipocas, disse consigo mesmo,
sem completar a frase, porque o Levante comeara a
soprar com mais fora, e ele comeou a sentir o vento
no rosto. Ele trazia os mouros,  verdade, mas tambm trazia o
cheiro do deserto e das mulheres cobertas com um vu. Trazia o
suor e os sonhos dos homens que um dia tinham partido em busca
do Desconhecido, em busca de ouro, de aventuras... e de
pirmides. O rapaz comeou a invejar a liberdade do
vento, e percebeu que poderia ser como ele. Nada o
impedia, excepto ele prprio. As ovelhas, a filha do
comerciante, os campos da Andaluzia, eram apenas
os passos da sua Lenda Pessoal.

     No dia seguinte o rapaz encontrou-se com o velho
ao meio-dia. Trazia seis ovelhas consigo.
     - Estou surpreendido - disse ele. - O meu amigo
comprou imediatamente o rebanho. Disse que a vida
inteira tinha sonhado ser pastor, e aquilo era um bom
sinal.
     -  sempre assim - disse o velho. - Chamamos de
Princpio Favorvel. Se fores jogar s cartas pela primeira
vez, com quase toda a certeza irs ganhar. Sorte do
principiante.
     - E porqu?
     - Porque a vida quer que vivas a tua Lenda Pessoal.
     Depois comeou a examinar as seis ovelhas e descobriu que
uma mancava. O rapaz explicou que isto no tinha importncia,
porque ela era a mais inteligente, e produzia bastante l.
     - Onde est o tesouro? - perguntou.
     - O tesouro est no Egipto, perto das Pirmides.
     O rapaz apanhou um susto. A velha tinha dito a
mesma coisa, mas no tinha cobrado nada.
     - Para chegar at ele, ters que seguir os sinais. Deus
escreveu no mundo o caminho que cada homem deve
seguir.  s ler o que Ele escreveu para ti.
     Antes que o rapaz dissesse alguma coisa, uma mariposa
comeou a esvoaar entre ele e o velho. Lembrou-se de seu av;
quando era criana, o av dissera-lhe que as mariposas eram
sinal de boa sorte. Como os grilos, as esperanas, as
lagartixas e os trevos de quatro folhas.
     - Isso - disse o velho, que era capaz de ler os seus
pensamentos. - Exactamente como o teu av te ensinou. Esses
so os sinais.
     Depois o velho abriu o manto que lhe cobria o peito. O
rapaz ficou impressionado com o que viu, e lembrou-se do
brilho que tinha notado no dia anterior. O velho tinha um
peitoral de ouro macio, coberto
de pedras preciosas.

     Era realmente um rei. Devia estar disfarado assim
para fugir dos salteadores.
     - Toma - disse o velho, tirando uma pedra branca e
uma pedra negra que estavam presas no centro do
peitoral de ouro. - Chamam-se Urim e Tumim. A preta
quer dizer sim, a branca quer dizer no. Quando
no conseguires entender os sinais, elas sero teis. Faz
sempre uma pergunta objectiva. Mas de uma maneira
geral, procura tomar as tuas decises. O tesouro est
nas Pirmides e isso j sabias; mas tiveste que pagar
seis ovelhas porque eu ajudei-te a tomar uma deciso.
     O rapaz guardou as pedras no alforje. Da por diante
tomaria as suas prprias decises...
     - No te esqueas de que tudo  uma coisa s. No
te esqueas da linguagem dos sinais. E, sobretudo,
no te esqueas de ir at ao fim da tua Lenda Pessoal.
Antes, porm, gostaria de contar-te uma pequena histria.
     Certo mercador enviou o filho para aprender o
Segredo da Felicidade com o mais sbio de todos os
homens. O rapaz andou durante quarenta dias pelo
deserto, at chegar a um belo castelo, no alto de uma
montanha. L vivia o Sbio que o rapaz procurava.
     Ao invs de encontrar um homem santo, porm, o
nosso heri entrou numa sala e viu uma actividade
imensa; mercadores entravam e saam, pessoas
conversavam pelos cantos, uma pequena orquestra
tocava melodias suaves, e havia uma farta mesa com
os mais deliciosos pratos daquela regio do mundo.
O Sbio conversava com todos, e o rapaz teve que esperar duas
horas at chegar a sua vez de ser atendido.      O Sbio
escutou atentamente o motivo da visita
do rapaz, mas disse-lhe que naquele momento no
tinha tempo para lhe revelar o Segredo da Felicidade.
Sugeriu que o rapaz desse um passeio pelo seu palcio, e
voltasse da a duas horas.
     - Entretanto, quero pedir-te um favor - completou
o Sbio, entregando ao rapaz uma colher de ch, onde
deitou duas gotas de leo. - Enquanto estiveres caminhando,
segura esta colher na mo sem deixares que o leo seja
derramado.
     O rapaz comeou a subir e a descer as escadarias
do palcio, mantendo sempre os olhos fixos na colher.
Ao fim de duas horas, voltou  presena do Sbio.
     Ento - perguntou o Sbio - viste as tapearias da
Prsia que esto na minha sala de jantar? Viste o jardim
que o Mestre dos Jardineiros levou dez anos a criar?
Reparaste nos belos pergaminhos da minha biblioteca?
     O rapaz, envergonhado, confessou que no tinha
visto nada. A sua nica preocupao fora a de no
derramar as gotas de leo que o Sbio lhe tinha confiado.
     - Pois ento volta e conhece as maravilhas do meu
mundo - disse o Sbio. - No podes confiar num homem se no
conheceres a sua casa.
     J mais tranquilo, o rapaz pegou na colher e voltou
a passear pelo palcio, desta vez reparando em todas
as obras de arte que pendiam do tecto e das paredes.
Viu os jardins, as montanhas ao redor, a delicadeza das
flores, o requinte com que cada obra de arte estava colocada

no seu lugar. De volta  presena do Sbio relatou
pormenorizadamente tudo o que tinha visto.
     - Mas onde esto as duas gotas de leo que te confiei? -
perguntou o Sbio.
     Olhando para a colher, o rapaz percebeu que as
tinha derramado.
     - Pois este  o nico conselho que tenho para te dar
- disse o mais Sbio dos Sbios. - O Segredo da Felicidade
est em olhar todas as maravilhas do mundo, e nunca esquecer
as duas gotas de leo na colher.

     O rapaz ficou em silncio. Tinha compreendido a
histria do velho rei. Um pastor gosta de viajar, mas
jamais esquece as suas ovelhas.
     O velho olhou para o rapaz, e com as duas mos
espalmadas fez alguns gestos estranhos na sua cabea.
Depois, pegou nos animais e seguiu o seu caminho.

     No alto da pequena cidade de Tarifa existe um velho forte
construdo pelos mouros, e quem se senta nas suas muralhas
consegue enxergar uma praa, um
vendedor de pipocas e um pedao de frica.
     Melquisedec, o Rei de Salm, sentou-se na muralha
do forte naquela tarde, e sentiu o vento Levante no
rosto. As ovelhas esperneavam a seu lado, com medo
do novo dono e excitadas com tantas mudanas. Tudo
que elas queriam era apenas comida e gua.
     Melquisedec olhou para o pequeno navio que
estava zarpando do porto. Nunca mais tornaria a ver
o rapaz, da mesma maneira que jamais tornou a ver
Abrao, depois de lhe ter cobrado o dzimo. Todavia,
esta era a sua obra. Os deuses no devem ter desejos, porque
os deuses no tm Lenda Pessoal. Todavia, o Rei de Salm
desejou intimamente que o rapaz tivesse xito.
Pena  que ele v rapidamente esquecer o meu
nome, pensou. Devia t-lo repetido mais de uma
vez. Assim, quando falasse a meu respeito, diria que
u Melquisedec, o Rei de Salm.
     Depois olhou para o cu, meio arrependido: Sei o
que  a vaidade das vaidades, como Tu disseste,
Senhor. Mas um velho rei s vezes tem que sentir
orgulho de si mesmo.

                                    ***

     Como  estranha a frica, pensou o rapaz.
     Estava sentado numa espcie de bar igual a outros
bares que tinha encontrado nas ruelas estreitas da
cidade. Algumas pessoas fumavam um cachimbo gigante, que era
passado de boca em boca. Em poucas horas tinha visto homens de
mos dadas, mulheres
com o rosto coberto, e sacerdotes que subiam a longas
torres e comeavam a cantar - enquanto todos  sua
volta se ajoelhavam e batiam com a cabea no solo.
     Coisa de infiis, disse para si mesmo. Quando
criana, vira sempre na igreja da sua aldeia uma imagem de
Santiago Matamouros no seu cavalo branco, com a espada
desembainhada e figuras como aquelas sob os seus ps. O rapaz

sentia-se mal e terrivelmente s. Os infiis tinham um olhar
sinistro.      Alm disso, com a pressa de viajar, tinha-se
esquecido de um detalhe, um nico detalhe, que podia afast-lo
do seu tesouro por muito tempo: naquele
pas todos falavam rabe.
     O dono do bar aproximou-se e o rapaz apontou para
uma bebida que tinha sido servida noutra mesa. Era
um ch amargo. O rapaz teria preferido beber vinho.
     Mas no devia preocupar-se agora com isso. Tinha
que pensar apenas no seu tesouro, e na maneira de
consegui-lo. A venda das ovelhas deixara-o com bastante
dinheiro no bolso, e o rapaz sabia que o dinheiro era mgico:
com ele ningum jamais est sozinho. Da
a pouco, talvez dentro de alguns dias, estaria junto das
Pirmides. Um velho, com todo aquele ouro no peito,
no precisava de mentir para ganhar seis ovelhas.
     O velho tinha-lhe falado de sinais. Enquanto atravessava
o mar, pensara nos sinais. Sim, sabia do que ele falara:
durante o tempo em que estivera nos
campos da Andaluzia, acostumara-se a ler na terra e
nos cus as condies do caminho que devia seguir.
Aprendera que certo pssaro indicava uma cobra por
perto, e que determinado arbusto era sinal de gua
da a alguns quilmetros. As ovelhas tinham-lhe ensinado isso.
    Se Deus conduz to bem as ovelhas, tambm
conduzir o homem, reflectiu, e ficou mais tranquilo.
O ch parecia menos amargo.
     - Quem s tu? - ouviu uma voz em espanhol.
     O rapaz ficou imensamente aliviado. Estava a
pensar em sinais e algum tinha aparecido.
     - Como  que tu falas espanhol? - perguntou.
     O recm-chegado era um rapaz vestido  maneira
dos ocidentais, mas a cor da sua pele indicava que
devia ser daquela cidade. Tinha mais ou menos a sua
altura e a sua idade.
     - Quase todos aqui falam espanhol. Estamos apenas a duas
horas de Espanha.
     - Senta-te e pede alguma coisa por minha conta - disse o
rapaz. - E pede um vinho para mim. Detesto este ch.
     - No h vinho no pas - disse o recm-chegado. -- A religio no o permite.
     O rapaz disse ento que precisava de alcanar as
Pirmides. Ia quase falando do tesouro, mas resolveu
ficar calado. Seno o rabe era bem capaz de querer
uma parte para lev-lo at l. Lembrou-se do que o
velho lhe dissera a respeito de propostas.
     - Gostaria que me levasses at l, se puderes. Posso
pagar-te como guia.
     - Tens alguma ideia de como chegar at l?
     O rapaz reparou que o dono do bar estava por perto,
ouvindo atentamente a conversa. Sentia-se incomodado com a sua
presena. Mas tinha encontrado um guia, e no ia perder esta
oportunidade.
     - Tens que atravessar todo o deserto do Sahar - disse o
recm-chegado. - E para isso precisamos de dinheiro. Quero
saber se tens dinheiro suficiente.
     O rapaz achou estranha a pergunta. Mas confiava
no velho, e o velho dissera-lhe que quando se quer

uma coisa, o universo sempre conspira a nosso favor.
     Tirou o dinheiro do bolso e mostrou-o ao recm-chegado. O
dono do bar aproximou-se e olhou tambm. Os dois trocaram
algumas palavras em rabe. O dono do bar parecia irritado.
     - Vamos embora - disse o recm-chegado. - Ele
no quer que continuemos aqui.
     O rapaz ficou aliviado. Levantou-se para pagar a
conta, mas o dono agarrou-o e comeou a falar sem
parar. O rapaz era forte, mas estava numa terra estrangeira.
Foi o seu novo amigo quem empurrou o dono para o lado e puxou
o rapaz para fora.
     - Ele queria o teu dinheiro - disse. - Tnger no 
igual ao resto de frica. Estamos num porto e os
portos tm sempre muitos ladres.
     Podia confiar no seu novo amigo. Ajudara-o numa situao
crtica. Tirou o dinheiro do bolso e contou-o.
     - Podemos chegar amanh s Pirmides - disse o
outro, pegando no dinheiro. - Mas preciso comprar
dois camelos.
     Saram andando pelas ruas estreitas de Tnger.
Por todo o lado havia barracas de coisas para vender.
Chegaram enfim ao centro de uma grande praa,
onde funcionava o mercado. Havia milhares de pessoas a
discutir, a vender, a comprar, hortalias misturadas com
adagas, tapetes juntamente com todo o tipo de cachimbos. Mas o
rapaz no tirava os olhos
do seu novo amigo. Afinal de contas, ele estava com
todo o seu dinheiro nas mos. Pensou em pedir-lho
de volta, mas achou que seria indelicado. No conhecia o
costume das terras estranhas cujo cho pisava.
     Basta vigi-lo, disse para consigo. Era mais forte
que o outro.
     De repente, no meio de toda aquela confuso, estava
a mais bela espada que os seus olhos j tinham visto.
A bainha era prateada, e o cabo negro, cravejado de
pedras. O rapaz prometeu a si mesmo que, quando
voltasse do Egipto, iria comprar aquela espada.
     - Pergunta ao dono da barraca quanto custa - disse
ao amigo. Mas percebeu que tinha ficado dois segundos
distrado, a olhar a espada.      O seu corao ficou pequeno,
como se o peito tivesse
subitamente encolhido. Teve medo de olhar para o lado,
porque sabia o que ia encontrar. Os olhos continuaram
fixos na bela espada por mais alguns momentos, at
que o rapaz tomou coragem e voltou-se.
     Em volta dele o mercado, as pessoas a ir e a vir, a
gritar e a comprar, os tapetes misturados com avels, as
alfaces junto s bandejas de cobre, os homens de mos
dadas pelas ruas, as mulheres de vu, o cheiro de
comida estranha, e em nenhum lugar, mas em nenhum lugar mesmo,
o rosto do seu companheiro.

     O rapaz ainda quis pensar que se tinham perdido por
acaso. Resolveu ficar ali mesmo, a esperar que o outro
voltasse. Pouco tempo depois um sujeito subiu a uma
daquelas torres e comeou a cantar; todas as pessoas se
ajoelharam no cho, bateram com a cabea no solo, e cantaram
tambm. Depois, como um bando de formigas trabalhadoras,

desfizeram as barracas e foram-se embora.      O sol comeou
tambm a ir-se embora. O rapaz
olhou-o durante muito tempo, at que ele se escondeu
atrs das casas brancas que davam a volta  praa.
Lembrou-se que, quando aquele sol nascera de
manh, ele estava noutro continente, era um pastor,
tinha sessenta ovelhas e um encontro marcado com
uma moa. De manh sabia tudo o que poderia acontecer enquanto
andava pelos campos.      Todavia, agora que o sol se
escondia, ele estava
     num pas diferente, um estranho numa terra estranha,
     onde nem sequer podia entender a lngua que se
     falava. J no era um pastor, e no tinha mais nada
     na vida, nem mesmo dinheiro para voltar e comear
     tudo de novo.
     Tudo isto entre o nascente e o poente do mesmo
     Sol, pensou o rapaz. E sentiu pena de si mesmo, porque s
vezes as coisas mudam na vida no espao de um simples grito,
antes que as pessoas possam acostumar-se com elas.
     Tinha vergonha de chorar. Jamais tinha chorado
na frente das suas prprias ovelhas. Todavia, o mercado estava
vazio e ele longe da ptria.      O rapaz chorou. Chorou
porque Deus era injusto, e retribua desta maneira s pessoas
que acreditavam nos seus prprios sonhos. Quando eu estava com
as ovelhas era feliz, e espalhava sempre felicidade  minha
volta. As pessoas viam-me chegar e recebiam--me bem.
     Mas agora estou triste e infeliz. O que farei? Vou
ser mais amargo e no vou confiar nas pessoas, porque
uma me traiu. Vou odiar aqueles que encontraram
tesouros escondidos, porque eu no encontrei o meu.
 vou sempre procurar manter o pouco que tenho,
porque sou pequeno demais para abraar o mundo.
Abriu o seu alforje para ver o que tinha l dentro;
talvez tivesse sobrado alguma coisa da sanduche que
comera no barco. Mas s encontrou o livro grosso, o
casaco, e as duas pedras que o velho lhe dera.
     Ao ver as pedras, sentiu uma imensa sensao de
alvio. Tinha trocado seis ovelhas por duas pedras
preciosas, sadas de um peitoral de ouro. Podia vender as
pedras e comprar a passagem de volta. Agora serei mais
esperto, pensou o rapaz, tirando as pedras
do alforge para escond-las dentro do bolso. Ali era
um porto, e esta era a nica verdade que aquele
homem lhe dissera; um porto est sempre cheio de
ladres.
     Agora compreendia tambm o desespero do dono
do bar: estava a tentar dizer-lhe para no confiar naquele
homem. Sou como todas as pessoas: vejo o mundo da maneira que
desejava que as coisas acontecessem, e no da maneira que as
coisas acontecem.      Ficou mirando as pedras. Tocou com
cuidado cada uma delas, sentindo a temperatura e a superfcie lisa.
Eram o seu tesouro. O simples toque das pedras deu-lhe mais
tranquilidade. Lembravam-lhe o velho.      Quando algum quer
alguma coisa, todo o Universo conspira para que possa
consegui-la, dissera-lhe o velho.      Queria acreditar que
aquilo podia ser verdade. Estava ali num mercado vazio, sem um
centavo no bolso, e sem ovelhas para guardar naquela noite.

Mas as pedras eram a prova de que tinha encontrado um
rei - um rei que sabia a sua histria, sabia da arma
de seu pai e da sua primeira experincia sexual.
     As pedras servem para adivinhao. Chamam-se
Urim e Tumim.
     O rapaz colocou de novo as pedras dentro do saco
e resolveu experimentar. O velho tinha-lhe dito que
fizesse perguntas claras, porque as pedras s serviam
para quem sabe o que quer.
     O rapaz ento perguntou se a bno do velho continuava
ainda com ele.      Tirou uma das pedras. Era sim.
     - Vou encontrar o meu tesouro? - perguntou o rapaz.
     Enfiou a mo no alforge e ia a pegar numa das pedras,
quando ambas escorregaram por um buraco no tecido. O rapaz
nunca tinha reparado que o seu alforge
estava rasgado. Baixou-se para apanhar Urim e Tumim
e coloc-los de novo dentro do saco. Ao v-los no cho,
porm, uma outra frase surgiu na sua cabea.
     Aprende a respeitar e a seguir os sinais, tinha
dito o velho rei.
     Um sinal. O rapaz riu consigo mesmo. Depois apanhou as
duas pedras do cho e recolocou-as no alforge. No pensava
coser o buraco - as pedras poderiam escapar por ali sempre que
o desejassem. Tinha compreendido que sobre certas coisas a
gente no devia perguntar, para no fugir do prprio destino.
     Prometi tomar as minhas prprias decises,
disse para si mesmo.
     Mas as pedras tinham dito que o velho continuava
com ele, e isso deu-lhe mais confiana. Olhou de novo
para o mercado vazio, e no sentiu o desespero de antes.
No era um mundo estranho; era um mundo novo.
     Pois, afinal de contas, tudo que ele queria era
exactamente isso: conhecer mundos novos. Mesmo que jamais
chegasse s Pirmides, j tinha ido muito mais
longe do que qualquer pastor que conhecia. Ah, se
eles soubessem que apenas a duas horas de barco
existem tantas coisas diferentes.
     O mundo novo aparecia na sua frente sob a forma
de um mercado vazio, mas ele j vira aquele mercado
cheio de vida, e nunca mais se iria esquecer. Lembrou-se da
espada - fora um preo caro contempl-la um pouco, mas tambm
nunca antes tinha visto nada igual. Sentiu de repente que
podia olhar o mundo como uma pobre vtima de um ladro, ou
como um aventureiro em busca de um tesouro.
     Sou um aventureiro em busca de um tesouro,
pensou, antes de cair exausto no sono.

     Acordou com um sujeito a aban-lo. Tinha dormido no meio
do mercado, e a vida daquela praa estava prestes a recomear
de novo.
     Olhou em volta,  procura das suas ovelhas, e percebeu
que estava num outro mundo. Ao invs de sentir-se triste,
ficou feliz. No tinha mais que seguir em busca de gua e de
comida; podia seguir em busca
de um tesouro. No tinha um centavo no bolso, mas
tinha f na vida. Tinha escolhido, na noite anterior,
ser um aventureiro igual aos personagens dos livros
que costumava ler.

     Comeou a andar sem pressa pela praa. Os mercadores
ergueram as suas barracas; ajudou um doceiro a montar a sua.
Havia um sorriso diferente no rosto
daquele doceiro: estava alegre, desperto para a vida,
pronto para comear um bom dia de trabalho. Era um
sorriso que lembrava alguma coisa do velho, aquele
velho e misterioso rei que tinha conhecido. Este
doceiro no est a fazer doces porque quer viajar, ou
porque quer casar com a filha de um comerciante. Este
doceiro faz doces porque gosta do seu trabalho,
pensou o rapaz, e notou que podia fazer a mesma coisa
que o velho - saber se uma pessoa est prxima ou
distante da sua Lenda Pessoal. S olhando para ela.
 fcil, e eu nunca tinha percebido isso.
     Quando acabaram de montar a barraca, o doceiro
ofereceu-lhe o primeiro doce que acabara de fazer. O
rapaz comeu satisfeito, agradeceu, e seguiu o seu
caminho. Quando j se tinha afastado um pouco, lembrou-se que
a barraca tinha sido montada por uma pessoa falando rabe e a
outra, espanhol.
     E tinham-se entendido perfeitamente.
     Existe uma linguagem que est para alm das palavras,
pensou o rapaz. Eu j experimentei isto com as ovelhas, e
agora estou a experiment-lo com os homens.
     Estava a aprender vrias coisas novas. Coisas que
ele j tinha experimentado, e que no entanto eram
novas, porque tinham passado por ele sem que delas
se tivesse apercebido. E no se tinha apercebido,
porque estava acostumado com elas. Se eu aprender
a decifrar esta linguagem sem palavras, vou conseguir decifrar
o mundo.      Tudo  uma coisa s e nica, dissera o velho.
     Resolveu andar sem pressa e sem ansiedade pelas
pequenas ruas de Tnger: s desta maneira iria conseguir
perceber os sinais. Isto exigia muita pacincia, mas esta  a
primeira virtude que um pastor aprende.
Mais uma vez percebeu que estava a aplicar naquele
mundo estranho as mesmas lies que as suas ovelhas
lhe tinham ensinado.
     Tudo  uma coisa s e nica, tinha dito o velho.

      O Mercador de Cristais viu o dia nascer, e sentiu
a mesma angstia que experimentava todas as manhs. Estava h
quase trinta anos naquele mesmo lugar, numa loja no alto de
uma ladeira, onde raramente passava um comprador. Agora era
tarde para mudar qualquer coisa: tudo que aprendera na vida
era vender e comprar cristais. Houve um tempo em que muita
gente conhecia a sua loja: mercadores rabes, gelogos
franceses e ingleses, soldados alemes, todos sempre com
dinheiro no bolso. Naquela poca era uma grande aventura
vender cristais, e ele pensava como iria ficar rico, e como
iria ter belas mulheres na sua velhice.
     Depois o tempo foi passando, e a cidade tambm.
Ceuta cresceu mais que Tnger, e o comrcio mudou
de rumo. Os vizinhos mudaram-se, e ficaram apenas
algumas lojas na ladeira. Ningum ia subir uma
ladeira por causa de umas poucas lojas.
Mas o Mercador de Cristais no tinha escolha. Tinha
vivido trinta anos da sua vida comprando e vendendo

peas de cristal, e agora era tarde demais para mudar
de rumo.
     Durante a manh inteira ficou l fora a olhar o pouco
movimento da rua. Fazia aquilo h anos, e j sabia o horrio
de cada pessoa. Quando faltavam alguns
minutos para o almoo, um rapaz estrangeiro parou
diante da sua vitrina. Estava vestido normalmente,
mas os olhos experimentados do Mercador de
Cristais concluram que ele no tinha dinheiro. Mesmo assim
resolveu reentrar na sua loja e esperar alguns instantes, at
que o rapaz se fosse embora.

     Havia um cartaz na porta que dizia que ali se
falavam vrias lnguas. O rapaz viu um homem
aparecer atrs do balco.
     - Posso limpar estes copos se o senhor quiser - disse o
rapaz. - Assim como eles esto, nenhum comprador vai querer
compr-los.
     O homem olhou sem dizer nada.
     - Em troca, o senhor paga-me um prato de comida.
     O homem continuou em silncio, e o rapaz sentiu
que precisava de tomar uma deciso. Tinha o casaco
dentro do seu alforge - no ia precisar mais dele no
deserto. Tirou o casaco e comeou a limpar os copos.
Durante meia hora limpou todos os copos da vitrine;
neste meio tempo entraram dois fregueses e compraram vrios
cristais.      Quando acabou de limpar tudo, ele pediu ao
homem um prato de comida.
     - Vamos comer - disse .o Mercador de Cristais.
     Colocou uma tabuleta na porta, e foram at um minsculo
bar no alto da ladeira. Assim que se sentaram na nica mesa
existente, o Mercador de Cristais sorriu.
     - No era preciso limpar nada - disse. - A lei do
Alcoro obriga a dar de comer a quem tem fome.
     - Ento porque me deixou fazer a limpeza? - perguntou o
rapaz.
     - Porque os cristais estavam sujos. E tanto tu como
eu precisvamos de limpar as cabeas dos maus pensamentos.
     Quando acabaram de comer, o Mercador virou-se
para o rapaz:
     - Queria que trabalhasses na minha loja. Hoje entraram
dois fregueses enquanto limpavas os copos, e isso  um bom
sinal.
     As pessoas falam muito em sinais, pensou o pastor. Mas
no percebem o que esto a dizer. Da mesma maneira que eu no
percebia que h muitos anos falava com as minhas ovelhas uma
linguagem sem palavras.
     - Queres trabalhar para mim? - insistiu o Mercador.
     - Posso trabalhar o resto do dia - respondeu o rapaz. -
Limparei at de madrugada todos os cristais da loja. Em troca,
preciso de dinheiro para estar amanh no Egipto.
     Imediatamente o velho comeou a rir.
     - Mesmo que limpasses os meus cristais durante
um ano inteiro, mesmo que ganhasses uma boa comisso de venda
em cada um deles, ainda ias ter que arranjar dinheiro
emprestado para ir ao Egipto. Existem milhares de quilmetros
de deserto entre Tnger e as Pirmides.
     Houve um momento de silncio to grande, que a

cidade parecia ter adormecido. J no havia mais os
bazares, as discusses dos mercadores, os homens que
subiam aos minaretes e cantavam, as belas espadas
com punhos cravejados. J no havia mais a esperana e a
aventura, velhos reis e Lendas Pessoais, o tesouro e as
pirmides. Era como se todo o mundo estivesse parado, porque a
alma do rapaz estava em silncio.
No havia nem dor, nem sofrimento, nem decepo:
apenas um olhar vazio atravs da pequena porta do
bar, e uma vontade imensa de morrer, de que tudo
acabasse para sempre naquele exacto minuto.
     O Mercador olhou espantado para o rapaz. Era como se toda
a alegria que vira naquela manh tivesse subitamente
desaparecido.
     - Posso dar-te dinheiro para voltar  tua terra, meu
filho - disse o Mercador de Cristais.
     O rapaz continuou em silncio. Depois levantou-se,
ajeitou as roupas, e pegou no seu alforge.
     - Vou trabalhar com o senhor - disse.
     E depois de outro silncio demorado, concluiu:
     - Preciso de dinheiro para comprar algumas ovelhas.

                               SEGUNDa PaRTE

     H quase um ms que o rapaz estava a trabalhar
para o Mercador de Cristais, e no era exactamente o
tipo de emprego capaz de o fazer feliz. O Mercador
passava o dia inteiro resmungando atrs do balco,
pedindo que tomasse cuidado com as peas, que no
deixasse quebrar nada.
Mas continuava no emprego porque o Mercador
era um velho rabujento, mas no injusto; o rapaz recebia uma
boa comisso em cada pea vendida, e j conseguira juntar
algum dinheiro. Naquela manh
tinha feito certos clculos: se continuasse a trabalhar
todos os dias como estava a trabalhar, ia precisar de
um ano inteiro para poder comprar algumas ovelhas.
     - Gostaria de fazer uma estante para os cristais disse o
rapaz ao Mercador. - Ela pode ser colocada do lado de fora, e
atrair quem passa l em baixo no sup da ladeira.
     - Nunca antes fiz uma estante - respondeu o Mercador. -
As pessoas passam e esbarram. Os cristais quebram-se.
     - Quando eu andava pelo campo com as ovelhas,
elas podiam morrer se encontrassem uma cobra. Mas
isso faz parte da vida das ovelhas e dos pastores.
     O Mercador atendeu um fregus que desejava trs
copos de cristal. Estava a vender melhor do que
nunca, como se o mundo tivesse recuado no tempo,
 poca em que a rua era uma das principais atraces
de Tnger.
     - O movimento j melhorou bastante - disse ao
rapaz, quando o fregus saiu. - O que eu ganho permite-me
viver melhor, e devolver-te- as tuas ovelhas em pouco tempo.
Para qu exigir mais da vida?
     - Porque temos que seguir os sinais - disse o rapaz,
quase sem querer; e arrependeu-se do que dissera,
porque o Mercador nunca tivera oportunidade de
encontrar um rei.

     Chama-se Princpio Favorvel, sorte do principiante -
dissera o velho. - Porque a vida quer que vivas a tua Lenda
Pessoal.
     Entretanto, o Mercador compreendia bem o que
lhe dizia o seu empregado. A simples presena deste
na loja era um sinal e, com o passar dos dias, com o
dinheiro a entrar em caixa, ele no estava arrependido
de ter contratado o espanhol. Mesmo que o rapaz
estivesse a ganhar mais do que devia; como ele
sempre achara que as vendas no mudariam mais,
tinha oferecido uma comisso demasiado alta, e a sua
intuio dizia que em breve o garoto estaria de volta
s suas ovelhas.
     - Por que  que querias conhecer as Pirmides? -
perguntou, para desviar o assunto da estante.
     - Porque sempre me falaram nelas - disse o rapaz,
evitando falar no seu sonho. Agora o tesouro era uma
lembrana sempre dolorosa, e o rapaz evitava pensar nisso.
     - Eu no conheo ningum aqui que queira atravessar o
deserto s para conhecer as Pirmides - disse o Mercador. -
So apenas um monte de pedras. Podes
construir uma no teu quintal.
     - O senhor nunca teve sonhos de viajar - disse o
rapaz, atendendo mais um fregus que entrava na loja.

                                    ***

     Dois dias depois o velho procurou o rapaz para
falar da estante.
     - No gosto de mudanas -, disse o Mercador. - Nem eu nem
tu somos como Hassan, o rico comerciante. Se ele erra numa
compra, isso no o afecta muito. Mas ns dois temos sempre que
conviver com os nossos erros.
      verdade, pensou o rapaz.
     - Para que queres a estante? - disse o Mercador.
     - Quero voltar mais rapidamente para as minhas
ovelhas. Temos que aproveitar quando a sorte est
do nosso lado, e fazer tudo para ajud-la da mesma
maneira que ela nos est ajudando. Chama-se
Princpio Favorvel. Ou sorte do principiante.
     O velho ficou calado por algum tempo. Depois disse:
     - O Profeta deu-nos o Alcoro, e deixou-nos apenas
cinco obrigaes para serem seguidas no decorrer da
nossa existncia. A mais importante  a seguinte: s
existe um Deus. As outras so: rezar cinco vezes por
dia, fazer jejum no ms do Ramado e praticar a caridade com
os pobres.      Parou de falar. Os seus olhos ficaram cheios
de gua ao falar do Profeta. Era um homem fervoroso, e
mesmo com toda a sua impacincia, procurava viver
a sua vida de acordo com a lei muulmana.
     - E qual  a quinta obrigao? - perguntou o rapaz.
     - H dois dias atrs disseste que eu nunca tive sonhos de
viajar - respondeu o Mercador. - A quinta obrigao de todo o
muulmano  uma viagem. Devemos ir, pelo menos uma vez na
vida,  cidade sagrada de Meca.
     - Meca  muito mais longe que as Pirmides. Quando eu era
jovem, preferi juntar o pouco dinheiro que tinha para comear
esta loja. Pensava em ser rico

algum dia, para ir a Meca. Passei a ganhar dinheiro,
mas no podia deixar ningum a cuidar dos cristais,
porque os cristais so coisas delicadas. Ao mesmo
tempo, via passar defronte da minha loja muitas
pessoas que seguiam na direco de Meca. Havia
alguns peregrinos ricos, que iam com um squito de
criados e de camelos, mas a maior parte das pessoas
era muito mais pobre do que eu era.
     Todas iam e voltavam contentes, e colocavam na
porta das suas casas os smbolos da peregrinao.
Uma delas, um sapateiro que vivia de remendar as
botas alheias, disse-me que tinha caminhado quase
um ano pelo deserto, mas que ficava sempre mais
cansado quando tinha que percorrer alguns quarteires de
Tnger para comprar couro.
     - Porque no vai a Meca agora? - perguntou o rapaz.
     - Porque Meca  o que me mantm vivo.  o que me
faz aguentar todos estes dias iguais, estes copos calados
nas prateleiras, o almoo e o jantar naquele restaurante
horrvel. Tenho medo de realizar o meu sonho, e depois
no ter mais motivos para continuar vivo.
     Tu sonhas com ovelhas e com pirmides. s diferente de
mim, porque desejas realizar os teus sonhos. Eu quero apenas
sonhar com Meca. J imaginei milhares de vezes a travessia do
deserto, a minha chegada  praa onde est a pedra Sagrada, as
sete voltas que devo dar em torno dela antes de toc-la. J
imaginei quais as pessoas que estaro a meu lado, na
minha frente, e as conversas e oraes que compartilharemos
juntos. Mas tenho medo que seja uma grande decepo, ento
prefiro apenas sonhar.
     Nesse dia, o Mercador deu permisso ao rapaz
para construir a estante. Nem todos podem ver os
sonhos da mesma maneira.

     Mais dois meses se passaram, e a estante trouxe
muitos fregueses  loja dos cristais. O rapaz calculou
que, se trabalhasse mais seis meses, poderia voltar a
Espanha e comprar sessenta ovelhas, e ainda mais
outras sessenta. Em menos de um ano ele teria
duplicado o seu rebanho, e ia poder negociar com os
rabes, porque j conseguia falar aquela lngua estranha.
Depois daquela manh no mercado, no mais utilizara Urim e
Tumim, porque o Egipto passara a
ser apenas um sonho to distante para ele como era
a cidade de Meca para o Mercador. Entretanto, o
rapaz agora estava contente com o seu trabalho, e
pensava a todo o momento no dia em que iria desembarcar em
Tarifa como um vencedor.      Lembra-te de saber sempre o que
queres, tinha dito o velho rei. O rapaz sabia, e estava a trabalhar para isso. Talvez o seu tesouro tivesse sido chegar
quela terra estranha, encontrar um assaltante, e
dobrar o nmero do seu rebanho sem ter gasto um
centavo sequer.
     Estava orgulhoso de si mesmo. Tinha aprendido
coisas importantes, como o comrcio de cristais, a
linguagem sem palavras, e os sinais. Uma tarde viu
um homem no alto da ladeira, a reclamar que era
impossvel encontrar um lugar decente para beber

alguma coisa depois de toda aquela subida. O rapaz
j conhecia a linguagem dos sinais, e chamou o velho
para conversar.
     - Vamos vender ch para as pessoas que sobem a
ladeira - disse ele.
     - Muitas pessoas vendem ch por aqui - respondeu
o Mercador.
     - Podemos vender ch em copos de cristal. Assim
as pessoas vo gostar do ch, e vo querer comprar
os cristais. Porque o que mais seduz os homens  a beleza.
     O Mercador olhou para o rapaz durante algum
tempo. No respondeu nada. Mas naquela tarde, depois de fazer
as suas oraes e fechar a loja, sentou-se na calada com ele
e convidou-o a fumar narguil - aquele estranho cachimbo que
os rabes usavam.
     - O que  que procuras? - perguntou o velho Mercador de
Cristais.
     - J lhe disse. Preciso ter de volta as ovelhas. E
para isso  necessrio dinheiro.
     O velho colocou algumas brasas novas no narguil,
e deu uma longa fumaa.
     - H trinta anos que tenho esta loja. Conheo o
bom e o mau cristal, e conheo todos os detalhes deste
comrcio. Estou acostumado com o seu tamanho e o
seu movimento. Se colocares ch em cristais, a loja
ir crescer. Ento eu vou ter que mudar a minha
maneira de viver.
     - E isso no  bom?
     - Estou acostumado com a minha vida. Antes de
chegares, eu pensava que tinha perdido muito tempo
no mesmo lugar, enquanto todos os meus amigos mudavam,
falhavam ou progrediam. Isto deixava-me com uma imensa
tristeza. Agora eu sei que no era
bem assim: a loja tem o exacto tamanho que eu sempre quis que
ela tivesse. No quero mudar, porque no sei como mudar. J
estou muito acostumado comigo mesmo.
     O rapaz no sabia o que dizer. O velho ento continuou:
  - Tu foste uma bno para mim. E hoje estou a
perceber uma coisa: toda a bno que no  aceite,
transforma-se numa maldio. Eu no quero mais da
vida. E tu ests-me a forar a ver riquezas e horizontes
que eu nunca conheci. Agora que os conheo, e que
conheo as minhas imensas possibilidades, vou sentir-me pior
do que me sentia antes. Porque sei que posso ter tudo, e no
quero.
     Ainda bem que eu no disse nada ao vendedor
de pipocas, pensou o rapaz.
     Continuaram a fumar o narguil por algum tempo,
enquanto o sol se escondia. Estavam a conversar em
rabe, e o rapaz estava satisfeito consigo mesmo,
porque falava rabe. Houve uma poca em que ele
achara que as ovelhas podiam ensinar tudo sobre o
mundo. Mas as ovelhas seriam incapazes de lhe ensinar rabe.
     Deve haver outras coisas no mundo que as ovelhas no
sabem ensinar, pensou o rapaz, enquanto olhava o Mercador em
silncio. Porque elas s esto
em busca de gua e comida. Acho que no so elas
que ensinam: eu  que aprendo.

     - Maktub - disse finalmente o Mercador.
     - O que  isso?
     - Precisarias de ter nascido rabe para compreender -
respondeu ele. - Mas a traduo seria algo como est escrito.
   E enquanto apagava as brasas do narguil, disse
ao rapaz que podia comear a vender ch nos copos
de cristal. s vezes,  impossvel deter o rio da vida.
     Em pouco tempo, o Mercador teve que contratar
mais dois empregados. Passou a importar, junto com
os cristais, quantidades enormes de ch, que eram
diariamente consumidas pelos homens e mulheres com sede de
coisas novas. E assim transcorreram seis meses.
     Os homens subiam a ladeira e ficavam cansados.
Ento, l no topo, havia uma loja de belos cristais
com ch de menta refrescante. Os homens entravam
para beber o ch, que era servido em lindos copos de
cristal.
     - Jamais a minha mulher pensou nisto - lembrava
um, e comprava alguns cristais, porque ia ter visitas
naquela noite: os seus convidados ficariam impressionados com
a riqueza das taas. Outro homem passou a garantir que o ch
era sempre mais gostoso
quando servido em recipientes de cristal, pois conservavam
melhor o aroma. Um terceiro disse ainda que era tradio no
Oriente utilizar copos de cristal para
servir o ch, por causa dos seus poderes mgicos.
     Em pouco tempo, a novidade espalhou-se, e muitas
pessoas passaram a subir at ao topo da ladeira para
conhecer a loja que estava a fazer algo de novo num
comrcio to antigo. Outras lojas de ch em copos de
cristal foram abertas, mas no ficavam em cima de
uma ladeira, e por isso estavam sempre vazias.
     O rapaz acordou antes do sol nascer. Tinham-se
passado onze meses e nove dias desde que ele pisara
pela primeira vez o continente africano.
     Vestiu a sua roupa rabe, de linho branco, comprada
especialmente para aquele dia. Colocou o leno na
cabea, fixo por um anel feito de pele de camelo. Calou
as sandlias novas, e desceu sem fazer qualquer rudo.
     A cidade ainda dormia. Fez uma sanduche de gergelim, e
bebeu ch quente num copo de cristal. Depois sentou-se na
soleira da porta, fumando o narguil sozinho.
     Fumou em silncio, sem pensar em nada, escutando apenas o
rudo sempre constante do vento que soprava trazendo o cheiro
do deserto. Depois que acabou de fumar, enfiou a mo num dos
bolsos do traje, e ficou alguns instantes a contemplar o que
havia retirado l de dentro.
     Era um grande mao de dinheiro. O suficiente para
comprar cento e vinte ovelhas, uma passagem de
volta, e uma licena de comrcio entre o seu pas e o
pas onde estava.

     Esperou pacientemente que o velho acordasse e
abrisse a loja. Os dois ento foram juntos tomar mais ch.
     - Vou-me embora hoje - disse o rapaz. - Tenho dinheiro
para comprar as minhas ovelhas. O senhor tem dinheiro para ir
a Meca.
     O velho no disse nada.

     - Peo a sua bno - insistiu o rapaz. - O senhor
ajudou-me.
     O velho continuou a preparar o ch em silncio. Depois
de um certo tempo, porm, virou-se para o rapaz.
     - Tenho orgulho de ti - disse. - Trouxeste alma 
minha loja de cristais. Mas sabes que eu no vou a
Meca. Como sabes que no voltars a comprar ovelhas.
     - Quem lhe disse isso? - perguntou o rapaz, assustado.
 - Maktub - disse simplesmente o velho Mercador
de Cristais.
E abenoou-o.

     O rapaz foi at ao seu quarto e juntou tudo que
tinha. Eram trs sacolas cheias. Quando ia j a sair,
notou que, num canto do quarto, estava o seu velho
alforge de pastor. Estava todo amassado, e quase j
nem o reconhecia. Dentro estava ainda o mesmo livro
e o casaco. Quando retirou o casaco, pensando em d-lo
de presente a um rapaz da rua, as duas pedras rolaram pelo
cho: Urim e Tumim.      O rapaz ento lembrou-se do velho
rei, e ficou surpreendido ao se aperceber h quanto tempo no
pensava mais nisso. Durante um ano tinha trabalhado
sem parar, pensando apenas em conseguir dinheiro
para no voltar de cabea baixa para Espanha.
     Nunca desistas dos teus sonhos, tinha dito o velho rei.
Segue os sinais.      O rapaz apanhou Urim e Tumim do cho, e
teve novamente aquela estranha sensao de que o rei
estava perto. Trabalhara duramente durante um ano,
e os sinais indicavam que agora era o momento de partir.
     Vou voltar exactamente a ser o que era dantes, pensou o
rapaz. E as ovelhas no me ensinaram a falar rabe.
     As ovelhas, entretanto, tinham-lhe ensinado uma
coisa muito mais importante: que havia uma linguagem no mundo
que todos compreendiam, e que o rapaz utilizara durante todo
aquele tempo para fazer
a loja progredir. Era a linguagem do entusiasmo, das
coisas feitas com amor e com vontade, em busca de
algo que se desejava ou em que se acreditava. Tnger
j no era uma cidade estranha, e ele sentiu que, da
mesma maneira que tinha conquistado aquele lugar,
poderia conquistar o mundo.
     Quando algum quer uma coisa, todo o Universo
conspira para que possa realiz-la, tinha dito o velho rei.
 Mas o velho rei no falara de assaltos, de desertos
imensos, de pessoas que conhecem os seus sonhos mas
no desejam realiz-los. O velho rei no tinha dito que
as Pirmides eram apenas um monte de pedras, e
qualquer um podia fazer um monte de pedras no seu
quintal. E tinha-se esquecido de dizer que, quando se
tem dinheiro para comprar um rebanho maior do que
o que se possui, deve-se comprar esse rebanho.
     O rapaz pegou no alforge e juntou-o aos seus outros
sacos. Desceu as escadas; o velho estava a atender um casal
estrangeiro, enquanto dois outros fregueses
andavam pela loja, a tomar ch em copos de cristal.
Era um bom movimento para aquela hora da manh.
Do lugar onde estava, notou pela primeira vez que o
cabelo do Mercador de Cristais lembrava muito o

cabelo do velho rei. Lembrou-se do sorriso do doceiro, no
primeiro dia em Tnger, quando ele no tinha
para onde ir nem o que comer; tambm aquele sorriso
lembrava o velho rei.
     Como se ele tivesse passado por ali e deixado uma
marca, pensou. E cada pessoa no tivesse j conhecido esse rei
em algum momento da sua existncia. Afinal de contas, ele
disse que sempre aparecia para
quem vive a sua Lenda Pessoal.

     Saiu sem se despedir do Mercador de Cristais. No
queria chorar porque as pessoas podiam ver. Mas ia
ter saudade de todo aquele tempo, e de todas as coisas
boas que tinha aprendido. Estava mais confiante em
si e tinha vontade de conquistar o mundo.
     Mas estou a caminho dos campos que j conheo,
para conduzir de novo as ovelhas. E comeava a no
estar muito contente com a sua deciso. Tinha trabalhado
um ano inteiro para realizar um sonho, e este sonho, a
cada minuto, ia perdendo a sua importncia. Talvez
porque no fosse, afinal, o seu sonho.
     Quem sabe se  melhor ser como o Mercador de
Cristais; nunca ir a Meca, e viver da vontade de conhec-la.
Mas estava segurando Urim e Tumim nas mos, e estas pedras
traziam-lhe a fora e a vontade
do velho rei. Por uma coincidncia - ou um sinal,
pensou o rapaz - chegou ao bar onde tinha entrado
no primeiro dia. Ali no estava mais o ladro, e o
dono trouxe-lhe uma xcara de ch.
     Poderei sempre voltar a ser pastor, pensou o rapaz.
Aprendi a cuidar das ovelhas, e nunca mais me esquecerei de
como elas so. Mas talvez no tenha outra oportunidade de chegar at s Pirmides do
Egipto. O velho tinha um peitoral de ouro, e conhecia
a minha histria. Era um rei de verdade, um rei sbio.
     Estava apenas a duas horas de barco das plancies da
Andaluzia, mas entre ele e as Pirmides havia um deserto
inteiro. O rapaz percebeu talvez esta maneira de avaliar
a mesma situao: na verdade, ele estava a menos de
duas horas do seu tesouro. Mesmo que, para fazer esse
trajecto, tivesse demorado quase um ano inteiro.
     Sei porque quero voltar para as minhas ovelhas. J
conheo as ovelhas; no do muito trabalho, e podem
ser amadas. No sei se o deserto pode ser amado, mas
 o deserto que esconde o meu tesouro. Se no conseguir
encontr-lo, poderei sempre voltar para casa. Mas de
repente a vida deu-me dinheiro suficiente, e eu tenho
todo o tempo que preciso; porque no?
     Sentiu uma alegria imensa naquele momento. Podia sempre
voltar a ser pastor de ovelhas. Podia sempre voltar a ser
vendedor de cristais. Talvez o mundo tivesse muitos outros
tesouros escondidos, mas ele tivera um sonho repetido e
encontrara um rei. No acontecia isso a qualquer um.
     Estava contente quando saiu do bar. Lembrara-se
que um dos fornecedores do Mercador trazia os cristais
em caravanas que cruzavam o deserto. Manteve Urim
e Tumim nas mos; por causa daquelas duas pedras,
estava de volta ao caminho do seu tesouro.

     Estou sempre perto dos que vivem a Lenda Pessoal, dissera
o velho rei.      No custava nada ir at ao entreposto para
saber se as Pirmides ficavam de facto muito longe.
     O Ingls estava sentado numa construo cheirando a
animais, suor e poeira. No podia apelidar aquilo de armazm;
era apenas um curral. Toda a
minha vida para ter que passar por um lugar como
este, pensou enquanto folheava distrado uma revista de
qumica. Dez anos de estudo conduziram-me a um curral.
Mas era preciso seguir para diante. Tinha que acreditar em
sinais. Toda a sua vida, todos os seus estudos foram em busca
da linguagem nica que o Universo
fala. Primeiro tinha-se interessado por Esperanto,
depois por religies, e finalmente por Alquimia. Sabia
falar Esperanto, entendia perfeitamente as diversas
religies, mas ainda no era um Alquimista. Tinha
conseguido decifrar coisas importantes,  verdade.
Mas as suas pesquisas tinham chegado a um ponto
em que no conseguia progredir mais. Tinha tentado
em vo entrar em contacto com um alquimista. Mas
os alquimistas eram pessoas estranhas, que s pensavam neles
mesmos, e quase sempre recusavam ajuda. Quem sabe, se no
tinham descoberto o segredo da Grande Obra - chamada Pedra
Filosofal - e por isso se fechavam no silncio.
     J tinha gasto parte da fortuna que o seu pai lhe
deixara, procurando inutilmente a Pedra Filosofal.
Tinha frequentado as melhores bibliotecas do mundo,
 comprado os livros mais importantes e mais raros
sobre Alquimia. Num deles descobriu que h muitos
anos atrs, um famoso alquimista rabe visitara a
Europa. Diziam que ele tinha mais de duzentos anos,
que descobrira a Pedra Filosofal e o Elixir da Longa
vida. O Ingls ficou impressionado com a histria.
Mas tudo no teria passado de mais uma lenda, se
um amigo seu - voltando de uma expedio arqueolgica no
deserto - no lhe tivesse falado sobre um rabe que tinha
poderes excepcionais.
     - Mora no osis de Al-Fayoum - disse o seu amigo.
- E as pessoas contam que tem duzentos anos, e que
 capaz de transformar qualquer metal em ouro.
     O Ingls no coube em si de tanta excitao.
Imediatamente cancelou todos os seus compromissos, juntou os
livros mais importantes, e agora estava ali, naquele
entreposto parecido com um curral, enquanto l fora uma imensa
caravana se preparava para cruzar o Sahar. A caravana passava
por Al-Fayoum.
     Tenho que conhecer esse maldito Alquimista,
pensou o Ingls. E o cheiro dos animais tornou-se
um pouco mais tolervel.
     Um jovem rabe, tambm carregado de malas,
entrou no lugar onde o Ingls estava e cumprimentou-o.
     - Para onde vai? - perguntou o jovem rabe.
     - Para o deserto - respondeu o Ingls, e voltou para
a sua leitura. No queria conversar agora. Precisava
recordar tudo que tinha aprendido em dez anos, pois
o Alquimista deveria submet-lo a alguma espcie
de prova.
     O jovem rabe tirou um livro e comeou a ler. O

livro estava escrito em espanhol. Ainda bem, pensou o Ingls.
Sabia falar espanhol melhor que rabe, e se este rapaz fosse
at Al-Fayoum, ia ter algum
para conversar quando no estivesse ocupado com
coisas importantes.
     Que coisa engraada, pensou o rapaz enquanto tentava mais
uma vez ler a cena do enterro que iniciava o livro. Faz quase
dois anos que comecei a
ler, e no consigo passar destas pginas. Mesmo sem
um rei para interromp-lo, no conseguia concentrar-se. Ainda
estava em dvida quanto  sua deciso. Mas estava a perceber
uma coisa importante: as decises eram apenas o comeo de
alguma coisa. Quando algum tomava uma deciso, na verdade
estava a mergulhar numa correnteza poderosa, que levava a
pessoa para um lugar que jamais sonhara na hora de
decidir.
     Quando resolvi ir em busca do meu tesouro, nunca imaginei
trabalhar numa loja de cristais, pensou o rapaz, para
confirmar o seu raciocnio. Da mesma maneira, esta caravana
pode ser uma deciso minha, mas o seu percurso ser sempre um
mistrio.
     Na sua frente estava um europeu tambm lendo
um livro. O europeu era antiptico, e tinha olhado
com desprezo quando ele entrara. Podiam at ter-se
tornado bons amigos, mas o europeu interrompera a
conversa.
     O rapaz fechou o livro. No queria fazer nada que
o deixasse parecido com aquele europeu. Tirou as
pedras do bolso, e comeou a brincar com elas.
     O estrangeiro deu um grito:
     - Olha! Urim e Tumim!
     O rapaz, mais do que depressa, guardou as pedras
no bolso.
     - No esto  venda - disse.
     - No valem muito - disse o Ingls. - So cristais de
rocha, nada mais. H milhes de cristais de rocha na
terra, mas para quem entende, estes so Urim e
Tumim. No sabia que existiam nesta parte do mundo.
     - Foi o presente de um rei - disse o rapaz.
     O estrangeiro ficou mudo. Depois enfiou a mo
no bolso e retirou, tremendo, duas pedras iguais.
     - Tu falaste num rei - disse.
     - E tu no acreditas que os reis conversem com pastores -
disse o rapaz, desta vez desejoso de encerrar a conversa.
- Pelo contrrio. Os pastores foram os primeiros a
reconhecer um rei que o resto do mundo se recusou
a conhecer. Por isso no  nada de extraordinrio que
os reis conversem com pastores.
     E completou, com medo que o rapaz no estivesse
a perceber:
     - Est na Bblia. No mesmo livro que me ensinou a
utilizar estas duas pedras. Estas pedras eram a nica
forma de adivinhao permitida por Deus. Os sacerdotes
traziam-nas num peitoral de ouro.
     O rapaz ficou contente de estar naquele entreposto.
     - Talvez isto seja um sinal - disse o Ingls, como
quem pensa alto.
     - Quem falou em sinais? - o interesse do rapaz crescia a

cada minuto.      - Tudo na vida so sinais - disse o Ingls,
desta vez fechando a revista que estava a ler. O Universo  feito por uma lngua que todo o mundo entende, mas que
j se esqueceu. Estou  procura dessa Linguagem Universal,
alm de outras coisas. Por isso estou aqui. Porque tenho que
encontrar um homem que conhece essa Linguagem Universal. Um Alquimista.
     A conversa foi interrompida pelo chefe do entreposto.
- Vocs esto com sorte - disse o rabe gordo. - Sai hoje 
tarde uma caravana para Al-Fayoum.
     - Mas eu vou para o Egipto - disse o rapaz.
     - Al-Fayoum  no Egipto - disse o homem gordo.
     - Que tipo de rabe s tu?
     O rapaz disse que era espanhol. O Ingls ficou
satisfeito: mesmo vestido como rabe, o rapaz pelo menos era
europeu.
     - Ele chama sorte aos sinais - disse o Ingls, depois que
o rabe gordo saiu. - Se eu pudesse, escreveria uma gigantesca
enciclopdia sobre as palavras :sorte e coincidncia.  com
estas palavras que se escreve a Linguagem Universal.
     Depois continuaram a conversar e o Ingls disse
ao rapaz que no tinha sido coincidncia encontr-lo com Urim e Tumim na mo. Perguntou se ele tambm ia  procura do
Alquimista.
     - Vou  procura de um tesouro - disse o rapaz, e
arrependeu-se imediatamente. Mas o Ingls pareceu
no dar importncia.
     - De certa forma, eu tambm vou - disse.
     - E nem sei o que quer dizer Alquimia - completou
o rapaz, quando o dono do entreposto comeou a cham-los l
para fora.

     - Eu sou o Lder da Caravana - disse um homem
de barba longa e olhos escuros. - Tenho poder de
vida e de morte sobre cada pessoa que conduzo.
porque o deserto  uma mulher caprichosa, e s vezes
deixa os homens loucos.
     Havia quase duzentas pessoas, e o dobro de animais.
eram camelos, cavalos, burros, aves. Havia mulheres,
crianas, e vrios homens com espadas  cintura e
longas espingardas aos ombros. O Ingls tinha vrias
malas, cheias de livros. Um imenso burburinho enchia
o local, e o Lder teve que repetir vrias vezes as suas
palavras para que todos entendessem.
     - H vrios homens e diferentes deuses no corao
destes homens. Mas o meu nico Deus  Al, e eu
juro por Al que farei o possvel e o melhor para vencer mais
uma vez o deserto. Agora quero que cada um dos senhores jure
pelo Deus em que acredita, no fundo do seu corao, de que me
ir obedecer em qualquer circunstncia. No deserto, a
desobedincia significa a morte.
     Um murmrio correu baixinho por todas as pessoas. Estavam
a jurar em voz baixa diante do seu Deus. O rapaz jurou por
Jesus Cristo. O Ingls ficou
em silncio. O murmrio estendeu-se durante um
tempo maior do que uma simples jura; as pessoas
tambm estavam a pedir proteco aos cus.
     Ouviu-se um longo toque de clarim, e cada um

montou no seu animal. O rapaz e o Ingls tinham
comprado camelos, e subiram com uma certa dificuldade. O rapaz
ficou com pena do camelo do Ingls: estava carregado com as
pesadas sacolas de livros.
     - No existem coincidncias - disse o Ingls, tentando
continuar a conversa que tinham iniciado no entreposto. - Foi
um amigo que me trouxe at aqui, porque conhecia um rabe,
que...
     Mas a caravana comeou a andar, e ficou impossvel
escutar o que o Ingls estava a dizer. Todavia, o rapaz sabia
exactamente do que se tratava: a cadeia
misteriosa que vai unindo uma coisa a outra, que o
tinha levado a ser pastor, a ter o mesmo sonho, e a
estar numa cidade perto de frica, a encontrar na
praa um rei, e a ser roubado para conhecer um
mercador de cristais, e...
     Quanto mais se chega perto do sonho, mais a
Lenda Pessoal se vai tornando a verdadeira razo de
viver, pensou.

     A caravana iniciou a sua marcha em direco ao
poente. Viajavam de manh, paravam quando o sol
ficava mais forte, e seguiam de novo ao entardecer.
O rapaz conversava pouco com o Ingls, que passava
a maior parte do tempo entretido com os livros.
     Ento, passou a observar em silncio a marcha de
animais e homens pelo deserto. Agora tudo era muito
diferente do dia em que tinham partido: naquele dia,
confuso e gritos, choros de crianas e relinchar de
animais, misturavam-se com as ordens nervosas dos
guias e dos comerciantes.
     No deserto, porm, havia apenas o vento eterno, o
silncio e os cascos dos animais. Mesmo os guias
conversavam pouco entre si.
     - J cruzei muitas vezes estas areias - disse um
cameleiro certa noite. - Mas o deserto  to grande,
os horizontes ficam to longe, que fazem a gente
sentir-se pequeno e permanecer em silncio.
     O rapaz entendeu o que o cameleiro queria dizer,
mesmo sem nunca ter, at ento, pisado um deserto.
Todas as vezes que olhava o mar ou o fogo, era capaz
de ficar horas em silncio, sem pensar em nada, mergulhado na
imensido e na fora dos elementos.      Aprendi com as
ovelhas e aprendi com os cristais, pensou ele. Posso tambm
aprender com o deserto. Ele parece-me mais velho e mais sbio.
    O vento no parava nunca. O rapaz lembrou-se
do dia em que sentiu este mesmo vento, sentado num
forte em Tarifa. Talvez ele estivesse agora roando
de leve pela l das suas ovelhas, que seguiam em
busca de alimento e gua pelos campos da Andaluzia.
     No so mais as minhas ovelhas, disse para si
mesmo, sem sentir saudades. Devem ter-se acostumado a um novo
pastor, e j me esqueceram. Isso  bom. Quem est acostumado a
viajar, como as ovelhas, sabe que  sempre necessrio partir um dia.
     Lembrou-se depois, da filha do comerciante, e
teve a certeza de que ela j tinha casado. Quem sabe
se com um vendedor de pipocas, ou com um pastor

que tambm soubesse ler e contasse histrias extraordinrias;
afinal, ele no devia ser o nico. Mas ficou impressionado com
o seu pressentimento: talvez ele estivesse aprendendo tambm
esta histria da Linguagem Universal, que sabe o passado e o
presente de todos os homens. Pressentimentos,
como a sua me costumava dizer. O rapaz comeou
a entender que os pressentimentos eram os rpidos
mergulhos que a alma dava nesta corrente universal
de vida, onde a histria de todos os homens est
ligada entre si, e podemos saber tudo, porque tudo
     est escrito.
     - Maktub - disse o rapaz, lembrando-se do Mercador de
Cristais.

     O deserto era s vezes feito de areia, e s vezes feito
de pedra. Se a caravana chegava frente a uma pedra,
contornava-a, se estavam diante de um rochedo, davam uma longa
volta. Se a areia era fina demais para os cascos dos camelos,
procuravam um lugar onde a areia fosse mais
resistente. s vezes o cho estava coberto de sal, no lugar
de um antigo lago. Os animais ento queixavam-se, e os
cameleiros desciam e ajudavam-nos. Depois colocavam
as cargas s suas prprias costas, passavam pelo cho
traioeiro, e novamente carregavam os animais. Se um
guia ficava doente ou morria, os cameleiros tiravam 
sorte e escolhiam um novo guia.
     Mas tudo isso acontecia por uma nica razo: no
importava quantas voltas tivesse que dar, a caravana
seguia sempre em direco a um mesmo ponto. Depois de vencidos
os obstculos, ela voltava-se de novo para o astro que
indicava a posio do osis. Quando
as pessoas viam aquele astro brilhando no cu pela
manh, sabiam que indicava um lugar com mulheres,
gua, tmaras e palmeiras. S o Ingls no percebia
aquilo: estava a maior parte do tempo imerso na leitura dos
seus livros.      O rapaz tambm tinha um livro, que havia
tentado ler nos primeiros dias de viagem. Mas achava muito mais interessante olhar a caravana e escutar o vento. Assim que aprendeu a conhecer melhor o seu camelo e a afeioar-se-lhe, deitou o livro fora. Era um peso desnecessrio, apesar do rapaz ter criado a superstio de que toda a vez que abria o livro, encontrava algum importante.
     Acabou por fazer amizade com o cameleiro que
viajava sempre a seu lado. De noite, quando paravam
em volta das fogueiras, costumava contar as suas
aventuras de pastor ao cameleiro.
     Numa destas conversas o cameleiro comeou a falar da sua
vida.
     - Eu morava num lugar perto de El Cairum - contou. -
Tinha a minha horta, os meus filhos e uma vida que no ia
mudar at ao dia da minha morte. Num ano em que a colheita foi
melhor, seguimos todos para Meca, e eu cumpri a nica
obrigao que faltava na minha vida. Podia morrer em paz, e
gostava disso.
     Certo dia a terra comeou a tremer, e o Nilo subiu
alm do seu limite. Aquilo que eu pensava que s
acontecia com os outros, acabou acontecendo comigo.
Os meus vizinhos tiveram medo de perder as suas oliveiras com

a inundao; a minha mulher teve receio de      que os nossos
filhos fossem levados pelas guas. E eu
     tive pavor de ver destrudo tudo o que tinha conquistado.
    Mas no houve qualquer possibilidade. A terra
     ficou imprestvel e tive que arranjar outro meio de
     vida. Hoje sou cameleiro. Mas ento compreendi a
palavra de Al: ningum sente medo do desconhecido, porque
qualquer pessoa  capaz de conquistar tudo o que quer e
necessita.
     S sentimos medo de perder aquilo que temos,
sejam as nossas vidas ou as nossas plantaes. Mas este
medo passa quando entendemos que a nossa histria E
     a histria do mundo foram escritas pela mesma Mo.

     s vezes as caravanas encontravam-se durante a
noite. Uma delas tinha sempre o que a outra estava
precisando - como se realmente tudo fosse escrito
por uma s Mo. Os cameleiros trocavam informaes sobre as
tempestades de vento, e reuniam-se em torno das fogueiras, a
contar as histrias do deserto. Outras vezes chegavam
misteriosos homens encapuados; eram bedunos que espiavam a
rota seguida pelas caravanas. Davam notcias de assaltantes e
tribos brbaras. Chegavam em silncio e partiam em silncio,
com as suas roupas negras e os seus capuzes deixando apenas os
olhos de fora.

     Numa dessas noites o cameleiro veio at  fogueira
onde o rapaz e o Ingls estavam sentados.
     - H rumores de guerra entre os cls - disse o cameleiro.
    Os trs ficaram quietos. O jovem espanhol notou
que havia medo no ar, mesmo que ningum tivesse
dito nenhuma palavra. Mais uma vez estava entendendo a
linguagem sem palavras, a Linguagem Universal.
     Depois de certo tempo, o Ingls perguntou se havia
perigo.
     - Quem entra no deserto no pode voltar - disse o
cameleiro. - Quando no se pode voltar, s devemos
ficar preocupados com a melhor maneira de seguir em
frente. O resto  por conta de Al, inclusive o perigo.
     E concluiu dizendo a misteriosa palavra: Maktub!
     - Tu precisas de prestar maior ateno s caravanas
- disse o rapaz ao Ingls, depois que o cameleiro saiu.
- Elas do muitas voltas, mas rumam sempre para o
mesmo lugar.
     - E tu devias ler mais sobre o mundo - respondeu
o Ingls. - Os livros so iguais s caravanas.

     O imenso grupo de homens e animais comeou a
andar mais rapidamente. Alm do silncio durante o
dia, as noites - quando as pessoas costumavam reunir-se para
conversar em torno das fogueiras - comearam a ficar tambm
silenciosas. Certo dia, o Lder da Caravana decidiu que nem as
fogueiras podiam ser acesas, para no chamar a ateno sobre a
caravana.
     Os viajantes passaram a fazer uma roda de animais, e
dormiam todos juntos no centro, tentando proteger-se do frio
nocturno. O Lder passou a instalar sentinelas armadas em
volta do grupo.      Numa daquelas noites o Ingls no

conseguiu dormir. Chamou o rapaz e comearam a passear pelas
dunas em volta do acampamento. Era uma noite de
lua cheia, e o rapaz contou ao Ingls toda a sua histria.
     O Ingls ficou fascinado com o episdio da loja
que progredira depois que o rapaz comeara a trabalhar nela.
     - Esse  o princpio que move todas as coisas - disse. -
Na Alquimia  chamado "Alma do Mundo". Quando se deseja algo
de todo o nosso corao, est-se mais prximo da Alma do
Mundo. Ela  sempre uma fora positiva.
     Disse tambm que isto no era apenas um dom dos
homens: todas as coisas sobre a face da Terra tinham
tambm uma alma, no importando se era mineral,
vegetal, animal, ou apenas um simples pensamento.
     - Tudo o que est sob e sobre a face da Terra
transforma-se, porque a Terra est viva; e tem uma alma. Somos
parte dessa Alma, e raramente sabemos que
ela trabalha sempre a nosso favor. Mas deves entender que, na
loja dos cristais, at mesmo os copos estavam a colaborar para
o teu sucesso.
     O rapaz ficou em silncio por algum tempo, olhando a lua
e a areia branca.
     - Tenho visto a caravana caminhando atravs do
deserto - disse por fim. - Ela e o deserto falam a
mesma lngua, e por isso ele permite que ela o atravesse. Vai
testar cada um dos teus passos, para ver se ests em perfeita
sintonia com ele; e se estiveres, ela chegar at ao osis.
Mas se um de ns chegasse aqui com muita coragem, mas sem
entender esta lngua, morreria no primeiro dia.
     Continuaram a olhar a lua, juntos.
     - Esta  a magia dos sinais - continuou o rapaz. - Tenho
visto como os guias lem os sinais do deserto e como a alma da
caravana conversa com a alma do deserto.
     Depois de algum tempo, foi a vez do Ingls falar.
     - Preciso prestar mais ateno  caravana - disse,
por fim.
     - E eu preciso ler os teus livros - disse o rapaz.

     Eram livros estranhos. Falavam em mercrio, sal,
drages e reis, mas ele no conseguia entender nada.
Entretanto, havia uma ideia que parecia repetida em
quase todos os livros: todas as coisas eram manifestaes de
uma coisa s.      Num dos livros ele descobriu que o texto
mais importante da Alquimia tinha apenas algumas linhas, e
tinha sido escrito numa simples esmeralda.
     -  a Tbua da Esmeralda - disse o Ingls, orgulhoso por
ensinar alguma coisa ao rapaz.
     - E ento, para qu tantos livros?
     - Para poder entender estas linhas - respondeu o
Ingls, sem, no entanto, estar muito convencido desta
resposta.

     O livro que mais interessou o rapaz contava a histria
dos alquimistas famosos. Eram homens que tinham dedicado a sua
vida inteira a purificar metais nos laboratrios; acreditavam
que, se um metal fosse
cozinhado durante muitos e muitos anos, acabaria
por se libertar de todas as suas propriedades individuais, e
em seu lugar sobraria apenas a Alma do Mundo. Esta Coisa nica

permitia que os alquimistas
compreendessem qualquer coisa sobre a face da
Terra, porque ela era a linguagem graas  qual as
coisas se comunicavam entre si. Chamavam a esta
descoberta - Grande Obra - constituda de uma parte
lquida e de uma parte slida.
     - No basta observar os homens e os sinais, para
se descobrir esta linguagem? - perguntou o rapaz.
     - Tu tens a mania de simplificar tudo - respondeu
o Ingls irritado. - A Alquimia  um trabalho srio. 
preciso que cada passo seja seguido exactamente
como os mestres ensinaram.
     O rapaz descobriu que a parte lquida da Grande
Obra era chamada Elixir da Longa Vida, e que este
elixir alm de curar todas as doenas evitava que o
alquimista ficasse velho. E a parte slida era chamada
Pedra Filosofal.
     - No  fcil descobrir a Pedra Filosofal - disse o
Ingls. - Os alquimistas ficavam muitos anos nos
laboratrios, olhando aquele fogo que purificava os
metais. Tanto olhavam o fogo, que aos poucos as suas
cabeas iam perdendo todas as vaidades do mundo.
Ento, um belo dia, descobriam que a purificao dos
metais acabara por purific-los a eles mesmos.
     O rapaz lembrou-se do Mercador de Cristais. Ele
havia dito que tinha sido bom limpar os seus copos,
para que ambos se libertassem tambm dos maus
pensamentos. Estava cada vez mais convencido de
que a Alquimia poderia ser aprendida na vida diria.
     - Alm disso - disse o Ingls - a Pedra Filosofal
tem uma propriedade fascinante. Uma pequena lasca
sua  capaz de transformar grandes quantidades de
metal comum em ouro.
     A partir desta frase, o rapaz ficou interessadssimo
pela Alquimia. Pensava que, com um pouco de pacincia, poderia
transformar tudo em ouro. Leu a vida de vrias pessoas que o
tinham conseguido: Helvetius, Elias, Fulcanelli, Geber. Eram
histrias fascinantes: todos viviam at ao fim a sua Lenda
Pessoal. Viajavam, encontravam sbios, faziam milagres em
frente dos incrdulos, possuam a Pedra Filosofal e o
Elixir da Longa Vida.
     Mas quando queria aprender a maneira de conseguir a
Grande Obra, ficava completamente perdido. Eram apenas
desenhos, instrues em cdigo, textos obscuros.
     - Porque falam eles to difcil? - perguntou certa
noite ao Ingls. Notou tambm que o Ingls andava
meio aborrecido como que sentindo a falta dos seus livros.
- Para que apenas sejam compreendidos por todos
aqueles que, sendo bastante responsveis, os possam
entender - disse ele. - Imagina se todo o mundo comeasse a
transformar chumbo em ouro. Da a pouco o ouro no ia valer
nada. S os persistentes, s aqueles que pesquisam muito, 
que conseguem a Grande Obra. Por isso estou no meio deste
deserto. Para encontrar um verdadeiro alquimista, que me ajude
a decifrar os cdigos.
     - Quando foram escritos estes livros? - perguntou
o rapaz.
     - H muitos sculos atrs.

     - Naquela poca no havia imprensa - insistiu o
rapaz. No havia possibilidade de todos tomarem
conhecimento da Alquimia. Porqu esta linguagem
to estranha, cheia de desenhos?
     O Ingls no respondeu nada. Disse que h vrios
dias que estava a prestar ateno  caravana, e que
no conseguia descobrir nada de novo. A nica coisa
que tinha notado era que os comentrios sobre a
guerra aumentavam cada vez mais.

     Um belo dia o rapaz devolveu os livros ao Ingls.
     - Ento aprendeste muita coisa? - perguntou o outro,
cheio de expectativa. Estava a precisar de algum com quem
pudesse conversar para esquecer o medo da guerra.
     - Aprendi que o mundo tem uma Alma, e quem
entender essa Alma, entender a linguagem das
coisas. Aprendi que muitos alquimistas viveram a
sua Lenda Pessoal e acabaram por descobrir a Alma
do Mundo, a Pedra Filosofal, o Elixir da Longa Vida.
     Mas, sobretudo, aprendi que estas coisas so to
simples que podem ser escritas numa esmeralda.
     O Ingls ficou decepcionado. Os anos de estudo,
os smbolos mgicos, as palavras difceis, os aparelhos de
laboratrio, nada disso tinha impressionado o rapaz. Ele deve
ter uma alma primitiva demais para compreender isto, pensou.
  Pegou nos seus livros e guardou-os nos sacos que
pendiam do camelo.
     - Volta para a tua caravana - disse. - Ela to-pouco
me ensinou qualquer coisa.
     O rapaz voltou a contemplar o silncio do deserto
e a areia levantada pelos animais. Cada um tem a
sua maneira de aprender, repetia consigo mesmo.
A maneira dele no  a minha, e a minha maneira
no  a dele. Mas ambos estamos  procura da nossa
Lenda Pessoal, e eu respeito-o por isso.

     A partir de ento a caravana comeou a viajar
dia e noite. A toda a hora apareciam os mensageiros
encapuados, e o cameleiro - que se havia tornado
amigo do rapaz - explicou que a guerra entre os cls
tinha comeado. Teriam muita sorte se conseguissem
chegar ao osis.
     Os animais estavam exaustos, e os homens cada
vez mais silenciosos. O silncio era mais terrvel durante a
noite, quando um simples relincho de camelo - que antes no
passava de um relincho de camelo - agora a todos assustava e
podia ser um sinal de invaso.
     O cameleiro, porm, parecia no se impressionar
muito com a ameaa de guerra.
     - Estou vivo - disse ao rapaz, enquanto comia um
prato de tmaras na noite sem fogueiras e sem lua. - Enquanto
estou a comer, no fao nada alm de comer. Se estiver a
caminhar, apenas caminharei. Se tiver que lutar, ser um dia
to bom para morrer como qualquer outro. Porque no vivo nem
no meu passado, nem no meu futuro. Tenho apenas o presente, e
ele  o que me interessa. Se puderes permanecer sempre no
presente, ento sers um homem feliz. Vais perceber que no
deserto existe vida, que h estrelas

no cu, e que os guerreiros lutam porque isso  inerente 
raa humana. A vida ser uma festa, um grande festival, porque
ela  sempre e apenas o momento que estamos a viver.
     Duas noites depois, quando se preparava para
dormir, o rapaz olhou em direco ao astro que seguiam durante
a noite. Achou que o horizonte estava um pouco mais baixo,
porque por cima do deserto havia centenas de estrelas.
     -  o osis - disse o cameleiro.
     - E porque no vamos para l imediatamente?
     - Porque precisamos de dormir.

     O rapaz abriu os olhos quando o sol comeava a surgir
no horizonte. Diante dele, onde as pequenas estrelas tinham
brilhado durante a noite, estendia-se uma fila interminvel de
tamareiras, cobrindo toda a frente do deserto.
     - Conseguimos! - disse o Ingls, que tambm tinha
acabado de acordar.
     O rapaz, porm, mantinha-se calado. Aprendera a
conhecer o silncio do deserto e contentava-se em
olhar as tamareiras na sua frente. Ele ainda tinha um
longo caminho a percorrer para chegar at s Pirmides, e um
dia aquela manh seria apenas uma lembrana. Mas agora era o
momento presente, a festa da qual tinha falado o cameleiro, e
ele estava a procurar viv-lo com as lies do seu passado e
os sonhos do seu futuro. Um dia, aquela viso de milhares de
tamareiras seria apenas uma lembrana. Mas para
ele, neste momento, significava sombra, gua, e um
refgio para a guerra. Assim como um relincho de
camelo podia transformar-se em perigo, tambm uma
fila de tamareiras podia significar um milagre.
     O mundo fala muitas linguagens, pensou o rapaz.


                                    ***

     Quando os tempos andam depressa, as caravanas
tambm aceleram, pensou o Alquimista, enquanto via
chegar centenas de pessoas e animais ao osis. As
pessoas gritavam atrs dos recm-chegados, a poeira
encobria o Sol do deserto e as crianas pulavam de
excitao ao ver os estranhos. O Alquimista viu os chefes
tribais aproximarem-se do Lder da Caravana, e conversarem
longamente entre si.
     Mas nada daquilo interessava ao Alquimista. J tinha
visto muita gente chegar e partir, enquanto o osis e o
deserto permaneciam imutveis. Tinha visto reis e mendigos
pisando aquelas areias que mudavam constantemente de forma sob
a aco do vento, mas que eram sempre as mesmas que conhecera
quando criana. Mesmo
assim, no conseguia conter no fundo do seu corao um
pouco da alegria de viver que todo o viajante experimentava
quando, depois de terra amarela e cu azul, o verde das
tamareiras aparecia diante dos seus olhos.
Talvez Deus tivesse criado o deserto para que o homem
pudesse alegrar-se com as tamareiras, pensou ele.
     Depois resolveu concentrar-se em assuntos mais
prticos. Sabia que naquela caravana vinha o homem
a quem devia ensinar parte dos seus segredos. Os

sinais tinham-lhe contado isso. Ainda no conhecia
esse homem, mas os seus olhos experimentados reconhec-lo-iam
quando o vissem. Esperava que fosse algum to capaz como o
seu aprendiz anterior.
     No sei porque  que estas coisas tm que ser
transmitidas da boca para o ouvido, pensava ele.
No era exactamente porque as coisas fossem secretas; Deus
revelava prodigamente os seus segredos a todas as criaturas.
  Ele s conhecia uma explicao para este facto: as
coisas tinham que ser transmitidas assim porque, sem
dvida, elas eram feitas de Vida Pura, e este tipo de
vida dificilmente consegue ser captado na forma de
pinturas ou de palavras.
     Porque as pessoas cedem ao fascnio da pintura e
das palavras, e acabam por esquecer-se da Linguagem do Mundo.
     Os recm-chegados foram trazidos imediatamente
 presena dos chefes tribais de Al-Fayoum. O rapaz
no podia acreditar no que via: ao invs de um poo
cercado de algumas palmeiras - como tinha lido certa
vez num livro de histria - o osis era muito maior do
que vrias aldeias de Espanha. Tinha trezentos poos,
cinquenta mil tamareiras, e muitas tendas coloridas
espalhadas entre elas.
     - Parece as Mil e Uma Noites - disse o Ingls, impaciente
por encontrar-se depressa com o Alquimista.
     Foram logo cercados pelas crianas, que olhavam
curiosas os animais, os camelos, e as pessoas que
chegavam. Os homens queriam saber se tinham visto
sinais de alguma batalha, e as mulheres disputavam
entre si os tecidos e as pedras que os mercadores tinham
trazido. O silncio do deserto parecia agora um sonho
distante; as pessoas falavam sem parar,
riam e gritavam, como se tivessem sado de um
mundo espiritual, para estarem de novo entre os homens. Todos
estavam contentes e felizes.
     Apesar das precaues do dia anterior, o cameleiro
explicou ao rapaz que os osis no deserto eram
sempre considerados terrenos neutros, porque a
maior parte dos habitantes eram mulheres e crianas.
E havia osis tanto de um lado como de outro; assim,
os guerreiros iam lutar nas areias do deserto e deixavam os
osis como cidades de refgio.
     O Lder da Caravana reuniu todos com uma certa
dificuldade, e comeou a dar as suas instrues. Iam
permanecer ali at que a guerra entre os cls estivesse
terminada. Como eram visitantes, deviam compartilhar as tendas
com os habitantes do osis, que lhes dariam os seus melhores
lugares. Era a hospitalidade
da Lei. Depois pediu que todos, inclusive as suas prprias
sentinelas, entregassem as armas aos homens indicados pelos
chefes tribais.
     - So as regras da Guerra - explicou o Lder da
Caravana. Desta maneira, os osis no poderiam abrigar
exrcitos ou guerreiros.
     Para surpresa do rapaz, o Ingls tirou do seu casaco
um revlver cromado e entregou-o ao homem que
recolhia as armas.
     - Para qu um revlver? - perguntou.

     - Para aprender a confiar nos homens - respondeu
o Ingls. Estava contente por ter chegado ao final da
sua busca.
     O rapaz, porm, pensava no seu tesouro. Quanto
mais perto ficava do seu sonho, mais as coisas se
tornavam difceis. J no funcionava aquilo que o
velho rei tinha chamado sorte do principiante. O
que funcionava, sabia ele, era o teste da persistncia
e da coragem de quem procura a sua Lenda Pessoal.
Por isso ele no podia apressar-se, nem ficar impaciente. Se
agisse assim, ia acabar por no ver os sinais que Deus tinha
posto no seu caminho.
     Foi Deus que os colocou no meu caminho, pensou o rapaz,
surpreendido consigo mesmo. At quele momento considerava os
sinais como uma coisa do mundo. Algo como comer ou dormir,
algo como
procurar um amor, ou conseguir um emprego. Nunca
tinha pensado que esta era uma linguagem que Deus
estava a usar para mostrar-lhe o que devia fazer.
     No fiques impaciente, repetiu o rapaz para consigo
mesmo. Como disse o cameleiro, come na hora de comer. E
caminha na hora de caminhar.

     No primeiro dia todos dormiram de cansao, inclusive o
Ingls. O rapaz tinha ficado longe dele, numa tenda com outros
cinco rapazes de idade quase igual
 sua. Eram gente do deserto e queriam saber histrias
das grandes cidades.
     O rapaz falou da sua vida como pastor, e ia comear a
contar a sua experincia na loja de cristais, quando o Ingls
entrou na tenda.
     - Procurei-te a manh inteira - disse, enquanto conduzia
o rapaz para fora. - Preciso que me ajudes a descobrir onde
mora o Alquimista.
     Primeiro os dois tentaram encontr-lo sozinhos.
Um Alquimista devia viver de maneira diferente das
outras pessoas do osis, e na sua tenda era muito provvel que
um forno estivesse permanentemente aceso.
Andaram bastante, at ficarem convencidos que
o osis era muito maior do que podiam imaginar, e
com muitas centenas de tendas.
     - Perdemos quase o dia inteiro - disse o Ingls,
sentando-se com o rapaz perto de um dos poos do osis.
     - Talvez seja melhor perguntarmos - disse o rapaz.
     O Ingls no queria contar aos outros a sua presena no
osis, e ficou bastante indeciso. Mas acabou por concordar e
pediu ao rapaz, que falava melhor o rabe, para se encarregar
disso. O rapaz aproximou-se de uma mulher que chegara junto do
poo para encher de gua um odre de pele de carneiro.
     - Boa tarde, minha senhora. Gostaria de saber onde
vive um Alquimista neste osis - perguntou o rapaz.
     A mulher disse que nunca tinha ouvido falar disso,
e foi-se imediatamente embora. Antes, porm, avisou
o rapaz de que no deveria conversar com mulheres
vestidas de preto, porque eram mulheres casadas. Ele
tinha que respeitar a Tradio.
     O Ingls ficou decepcionadssimo. Tinha feito toda a
sua viagem para nada. O rapaz tambm ficou triste; o

seu companheiro tambm estava em busca da sua
lenda Pessoal. E quando algum faz isso, todo o
universo se esfora para que a pessoa consiga o que
deseja, dissera o velho rei. Ele no podia estar enganado.
     - Eu nunca tinha antes ouvido falar de alquimistas
- disse o rapaz. - Seno tentaria ajudar-te.
     Alguma coisa brilhou nos olhos do Ingls.
     -  isso! Talvez ningum aqui saiba o que  um
alquinista! Pergunta pelo homem que cura todas as doenas da
aldeia!
     Vrias mulheres vestidas de preto vieram buscar
gua ao poo e o rapaz no conversou com elas, por
mais que o Ingls insistisse. At que um homem se
aproximou.
     - Conhece algum que cura as doenas, aqui na
aldeia? - perguntou o rapaz.
     - Al cura todas as doenas, - disse o homem,
visivelmente apavorado com os estrangeiros. - Vocs esto 
procura de bruxos.
     E depois de dizer alguns versculos do Alcoro, seguiu o
seu caminho. Um outro homem se aproximou. Era mais velho, e
trazia apenas um pequeno balde. O rapaz repetiu
     a pergunta.
     -Por que querem vocs conhecer esse tipo de homem? -
respondeu o rabe com outra pergunta.
     - Porque o meu amigo viajou muitos meses para
encontr-lo - disse o rapaz.
     - Se esse homem existe no osis, deve ser muito
poderoso - disse o velho, depois de pensar por alguns
instantes. - Nem os chefes tribais conseguiriam v-lo
quando precisam. S quando ele prprio assim determinasse.
Esperem o final da guerra. E ento partam com a
caravana. No procurem entrar na vida do osis,
- concluiu, afastando-se.
     Mas o Ingls ficou exultante. Estavam na pista certa.
     Finalmente surgiu uma moa que no estava vestida de
negro. Trazia um cntaro ao ombro, e a cabea, coberta com um
vu, mas tinha o rosto descoberto.
     O rapaz aproximou-se dela para perguntar-lhe sobre
o Alquimista.
     Ento foi como se o tempo parasse, e a Alma do
Mundo surgisse com toda a fora diante do rapaz.
Quando ele olhou os seus olhos negros, os seus lbios
indecisos entre um sorriso e o silncio, compreendeu
a parte mais importante e mais sbia da Linguagem
que o mundo falava, e que todas as pessoas da terra
eram capazes de escutar nos seus coraes. E isso era
chamado Amor, uma coisa mais antiga que os homens e que o
prprio deserto e que, no entanto, ressurgia sempre com a
mesma fora onde quer que dois pares de olhos se cruzassem
como se cruzaram aqueles dois pares de olhos diante de um
poo. Os lbios finalmente resolveram dar um sorriso, e aquilo
era um sinal, o sinal que ele esperou sem saber durante
tanto tempo na sua vida, que tinha buscado nas ovelhas e nos
livros, nos cristais e no silncio do deserto. Ali estava a
pura linguagem do mundo, sem explicaes, porque o Universo
no precisava de explicaes para continuar o seu caminho no
espao sem fim. Tudo o que o rapaz entendia naquele momento

era que estava diante da mulher da sua vida, e sem
nenhuma necessidade de palavras, ela devia saber
disso tambm. Tinha mais a certeza disso do que de
qualquer coisa no mundo, mesmo que seus pais, e os
pais de seus pais dissessem que era preciso namorar,
noivar, conhecer a pessoa e ter dinheiro antes de se
casar. Quem dizia isso talvez nunca tivesse conhecido
a Linguagem Universal, porque quando se mergulha
nela,  fcil entender que sempre existe no mundo
uma pessoa que espera a outra, seja no meio de um
deserto ou no meio das grandes cidades. E quando
estas pessoas se cruzam, e os seus olhos se encontram,
todo o passado e todo o futuro perde qualquer importncia, e
s existe aquele momento, e aquela certeza incrvel de que
todas as coisas debaixo do Sol foram
escritas pela mesma Mo. A Mo que desperta o
Amor, e que fez uma alma gmea para cada pessoa
que trabalha, descansa e busca tesouros debaixo do
Sol. Porque sem isto no haveria qualquer sentido
para os sonhos da raa humana.
     Maktub, pensou o rapaz.

     O Ingls levantou-se de onde estava sentado e
sacudiu o rapaz.
     - Vamos, pergunta-lhe!
     O rapaz aproximou-se da moa. Ela tornou a sorrir.
Ele sorriu tambm.
     - Como te chamas? - perguntou.
     - Chamo-me Ftima - disse a moa, baixando os olhos.
     -  um nome que algumas mulheres tm na terra
de onde venho.
     -  o nome da filha do Profeta - disse Ftima. - Os
guerreiros levaram-no para l.
     A moa delicada falava dos guerreiros com orgulho.
A seu lado o Ingls insistia, e o rapaz perguntou se ela
sabia de um homem que curava todas as doenas.
     -  um homem que conhece os segredos do mundo. Conversa
com os djins do deserto - disse ela. Os djins eram os
demnios. E a moa apontou para o Sul, para o lugar onde
aquele estranho homem morava.
     Depois encheu o seu cntaro e partiu. O Ingls
partiu tambm, em busca do Alquimista. E o rapaz
ficou por muito tempo sentado ao lado do poo, compreendendo
que um dia o Levante tinha deixado no seu rosto o perfume
daquela mulher, e que j a amava antes mesmo de saber que ela
existia, e que o seu amor por ela faria com que encontrasse
todos os tesouros do mundo.

     No dia seguinte o rapaz voltou ao poo, para esperar a
moa. Para sua surpresa, encontrou l o Ingls, olhando pela
primeira vez o deserto.
     - Esperei  tarde e  noite - disse o Ingls. - Ele
chegou com as primeiras estrelas. Contei-lhe o que
andava  procura. Ento perguntou-me se j tinha
transformado chumbo em ouro. Eu disse que era isso
que queria aprender. Mandou-me tentar. Foi tudo o
que me disse: v tentar.
     O rapaz ficou calado. O Ingls tinha viajado tanto

para ouvir o que j sabia. Ento lembrou-se que ele
tambm tinha dado seis ovelhas ao velho rei pela
mesma razo.
     - Ento tenta - disse para o Ingls.
     -  isso que vou fazer. E vou comear agora.
     Pouco depois do Ingls sair, Ftima chegou para
encher de gua o seu cntaro.
     - Vim dizer-te uma coisa simples - disse-lhe o
rapaz. - Quero que sejas minha mulher. Amo-te.
     A moa deixou que a gua transbordasse do cntaro.
     - Vou esperar-te todos os dias aqui. Cruzei o deserto em
busca de um tesouro que se encontra perto das pirmides. A
guerra foi para mim uma maldio.
Agora  uma bno, porque me deixa perto de ti.
     - A guerra um dia vai acabar - disse a moa.
     O rapaz olhou as tamareiras do osis. Tinha sido
pastor. E ali existiam muitas ovelhas. Ftima era mais
importante que o tesouro.
     - Os guerreiros buscam os seus tesouros - disse a
moa, como se estivesse adivinhando o pensamento
do rapaz. - E as mulheres do deserto tm orgulho
nos seus guerreiros.
     Depois tornou a encher o seu cntaro, e foi-se embora.
   Todos os dias o rapaz ia para o poo esperar Ftima.
Falou-lhe da sua vida de pastor, do rei, da loja de cristais.
Ficaram amigos, e com excepo dos quinze minutos que passava
com ela, o resto do dia custava-lhe infinitamente a passar.
Quando j estava h quase um ms no osis, o
Lder da Caravana convocou todos para uma reunio.
     - No sabemos quando a guerra vai acabar, e no
podemos seguir viagem - disse. - Os combates
devem continuar por muito tempo, talvez muitos
anos. Existem guerreiros fortes e valentes de ambos
os lados, e existe a honra de combater em ambos os
exrcitos. No  uma guerra entre bons e maus. 
uma guerra entre foras que lutam pelo mesmo
poder, e quando este tipo de batalha comea, demora
mais que as outras, porque Al est dos dois lados.
     As pessoas dispersaram. O rapaz tornou a encontrar-se com
Ftima naquela tarde, e falou do que tinham dito na reunio.
  - No segundo dia em que nos encontrmos - disse
Ftima - falaste-me do teu amor. Depois ensinaste-me coisas
belas, como a Linguagem e a Alma do Mundo. Tudo isto me fez
aos poucos ser parte de ti.
     O rapaz ouvia a sua voz, e achava-a mais bela que
o barulho do vento nas folhas das tamareiras.
     - Faz muito tempo, que tenho vindo aqui a este
poo esperar por ti. No consigo lembrar-me do meu
passado, da Tradio, da maneira que os homens
esperam que se comportem as mulheres do deserto.
Desde criana que eu sonhava que o deserto me iria
trazer o maior presente da minha vida. Este presente
chegou afinal, e s tu.
     O rapaz pensou em tocar a sua mo. Mas Ftima
segurava as alas do cntaro.
     - Falaste-me dos teus sonhos, do velho rei, e do
tesouro. Falaste-me dos sinais. Ento no tenho medo
de nada, porque foram estes sinais que te trouxeram

at mim. E eu sou parte do teu sonho, da tua Lenda
Pessoal, como costumas chamar.
     Por essa razo quero que sigas o teu caminho em
direco ao que vieste buscar. Se tiveres que esperar
o final da guerra, muito bem. Mas se tiveres que
seguir mais cedo, vai em direco  tua Lenda. As
dunas mudam com o vento, mas o deserto permanece
o mesmo. Assim ser com o nosso amor.
     Maktub - disse ela ainda. - Se eu for parte da tua
Lenda, voltars um dia.
     O rapaz saiu triste do encontro com Ftima. Ele
lembrava-se de muita gente que tinha conhecido. Os pastores
casados tinham muita dificuldade em convencer as suas esposas
de que precisavam andar pelos
campos. O amor exigia a presena junto da pessoa
amada.
     No dia seguinte ele contou tudo isto a Ftima.
     - O deserto leva os nossos homens e nem sempre
os traz de volta - disse ela. - Ento acostumamo-nos
com isso. E eles passam a existir nas nuvens sem
chuva, nos animais que se escondem entre as pedras,
na gua que sai generosa da terra. Eles passam a fazer
parte de tudo, passam a ser a Alma do Mundo.
     Alguns regressam. E ento todas as outras mulheres ficam
felizes, porque os homens por quem esperam tambm podem voltar
um dia. Antes eu olhava essas mulheres, e invejava a sua
felicidade.
Agora vou ter tambm uma pessoa por quem esperar.
     Sou uma mulher do deserto e orgulho-me disso.
Quero que o meu homem tambm caminhe livre como
o vento que move as dunas. Quero tambm poder ver
o meu homem nas nuvens, nos animais e na gua.

     O rapaz foi procurar o Ingls. Queria contar-lhe
sobre Ftima. Ficou surpreso quando viu que o Ingls
tinha construdo um pequeno forno ao lado da sua
tenda. Era um forno estranho, com um frasco transparente em
cima. O Ingls alimentava o fogo com lenha, e olhava o
deserto. Os seus olhos pareciam ter
mais brilho quando passava o tempo todo lendo livros.
     - Esta  a primeira fase do trabalho - disse o Ingls.
- Tenho que separar o enxofre impuro. Para isso, no
posso ter medo de falhar. O meu medo de falhar foi
o que me impediu de tentar a Grande Obra at hoje.
 agora que estou a comear o que podia ter comeado dez anos
atrs. Mas sinto-me feliz por no ter de esperar vinte anos
mais.
     E continuou a alimentar o fogo e a olhar o deserto. O
rapaz ficou a seu lado por algum tempo, at que o
deserto comeou a ficar rosado com a luz do entardecer.
Ento sentiu uma imensa vontade de ir at l, para ver
se o silncio conseguia responder s suas perguntas.
     Caminhou sem destino por algum tempo, mantendo as
tamareiras do osis ao alcance dos seus olhos. Escutava o
vento, e sentia as pedras sob os seus
ps. s vezes encontrava alguma concha, e sabia que
aquele deserto, num tempo remoto, tinha sido um
grande mar. Depois sentou-se numa pedra e deixou-se hipnotizar

pelo horizonte que existia na sua frente. No conseguia
entender o Amor sem o sentimento
de posse; mas Ftima era uma mulher do deserto e
se algum podia ensinar-lhe, era o deserto.
     Ficou, assim, sem pensar em nada, at que pressentiu
um movimento sobre a sua cabea. Olhando para o cu,
viu que eram dois gavies, voando muito alto no cu.
     O rapaz comeou a olhar os gavies, e as figuras
que eles desenhavam no cu. Parecia uma coisa
desordenada, todavia, tinham algum sentido para ele.
Apenas no conseguia compreender o seu significado. Decidiu
ento que devia acompanhar com os olhos o movimento dos
pssaros, e talvez pudesse ler alguma mensagem.
Talvez o deserto pudesse explicar-lhe o amor sem posse.
Comeou a sentir sono. O corao pediu-lhe que
     no dormisse: ao invs disso, devia entregar-se.
     Estava a penetrar na Linguagem do Mundo, e tudo nesta
terra faz sentido, at mesmo o voo dos gavies - disse. E
aproveitou para agradecer pelo facto de
estar cheio de amor por uma mulher.
     Quando se ama, as coisas fazem ainda mais sentido,
pensou.
     De repente, um gavio deu um rpido mergulho
     no cu e atacou o outro. Nesse preciso momento, o
     rapaz teve uma sbita e rpida viso: um exrcito,
     de espadas desembainhadas, a entrar no osis. A
     viso logo desapareceu, mas aquilo deixou-o
sobressaltado. Tinha ouvido falar das miragens, e j vira
algumas: eram desejos que se materializavam sobre
a areia do deserto. Todavia, ele no desejava um
     exrcito a invadir o osis.
     Pensou em esquecer aquilo e voltar  sua meditao.
Tentou novamente concentrar-se no deserto cor-de-rosa e nas
pedras. Mas alguma coisa no seu corao no o deixava
sossegado.
     Siga sempre os sinais, disse o velho rei. E o rapaz
pensou em Ftima. Lembrou-se do que tinha visto, e
pressentiu o que estava prestes a acontecer.
     Com muita dificuldade, saiu do transe em que
tinha entrado. Levantou-se, e comeou a caminhar
em direco s tamareiras. Mais uma vez percebia as
muitas linguagens das coisas: desta vez, o deserto
era seguro, e o osis transformara-se em perigo.

     O cameleiro estava sentado aos ps de uma tamareira,
tambm a olhar o pr-do-sol. Viu quando o rapaz surgiu por
detrs de uma das dunas.
     - Um exrcito aproxima-se - disse. - Tive uma viso.
     - O deserto enche de vises o corao dos homens
- respondeu o cameleiro.
     Mas o rapaz contou-lhe dos gavies: estava a observar o
seu voo quando mergulhara de repente na Alma do Mundo.
     O cameleiro ficou imvel; percebia o que o rapaz
estava a dizer. Sabia que qualquer coisa na face da
terra pode contar a histria de todas as coisas. Se
abrisse um livro em qualquer pgina, ou olhasse as
mos de uma pessoa, ou as cartas do baralho, ou o
voo dos pssaros, ou seja l o que fosse, qualquer

pessoa iria encontrar um lao com o que estava a viver.
Na verdade, no eram as coisas que mostravam algo
por si s; eram as pessoas que, ao olhar para as coisas,
descobriam a maneira de penetrar na Alma do Mundo.
     O deserto estava cheio de homens que ganhavam
a vida porque podiam penetrar com facilidade na
Alma do Mundo. Eram conhecidos por Adivinhos, e
temidos por mulheres e velhos. Os Guerreiros raramente os
consultavam, porque  impossvel entrar numa batalha sabendo
quando se vai morrer. Os
Guerreiros preferiam o sabor da luta e a emoo do
desconhecido; o futuro tinha sido escrito por Al, e o
que quer que Ele tivesse escrito, era sempre para o
bem do homem.
     Portanto, os Guerreiros viviam apenas o presente,
     porque o presente era cheio de surpresas, e eles
     tinham que prestar ateno a muitas coisas: onde
     estava a espada do inimigo, onde estava o seu cavalo,
qual o prximo golpe que deviam desferir para salvar
     a vida.
     O cameleiro no era Guerreiro, e j tinha consultado
alguns adivinhos. Muitos disseram coisas certas, outros
disseram coisas erradas. At que um deles, o
mais velho (e o mais temido), perguntou por que razo
o cameleiro estava to interessado em saber o futuro.
     - Para que possa fazer as coisas - respondeu o cameleiro.
- E mudar o que no gostaria que acontecesse.
     - Ento deixar de ser o teu futuro - respondeu o
adivinho.
     - Talvez ento eu queira saber o futuro para me
preparar para as coisas que viro.
     - Se forem coisas boas, sero uma agradvel surpresa -
disse o adivinho. - Se forem coisas ruins, estars a sofrer
muito antes delas acontecerem.
     - Quero saber o futuro porque sou um homem - disse o
cameleiro para o adivinho. - E os homens vivem em funo do
seu futuro.
     O adivinho ficou quieto por algum tempo. Era
especialista no jogo das varetas, que eram atiradas
ao cho e interpretadas segundo a maneira como
caam. Naquele dia ele no lanou as varetas. Envolveu-as num
leno e tornou a coloc-las no bolso.
     - Ganho a vida adivinhando o futuro das pessoas
- disse ele. - Conheo a cincia das varetas, e sei como
utiliz-la para penetrar nesse espao onde tudo est
escrito. Ali posso ler o passado, descobrir o que j foi
esquecido, e entender os sinais do presente. Quando
as pessoas me consultam, eu no estou a ler o futuro;
estou a adivinhar o futuro. Porque o futuro pertence
a Deus, e Ele s o revela em circunstncias extraordinrias. E
como consigo adivinhar o futuro? Graas aos sinais do
presente. No presente  que est o segredo; se prestares
ateno ao presente, poders melhor-lo. E se melhorares o
presente, o que acontecer depois tambm ser melhor. Esquece
o futuro e vive cada dia da tua vida nos ensinamentos da Lei,
e na confiana de que Deus cuida dos seus filhos.
Cada dia traz em si a Eternidade.
     O cameleiro quis saber quais as circunstncias

excepcionais em que Deus permitia ver o futuro:      - Quando
Ele mesmo o mostra. E Deus mostra o
futuro raramente, e por uma nica razo:  um futuro
que foi escrito para ser mudado.

     Deus tinha mostrado um futuro ao rapaz, pensou
o cameleiro. Porque queria que o rapaz fosse o Seu
instrumento.
     - Vai falar com os chefes tribais - disse o cameleiro,
- Conta acerca dos guerreiros que se aproximam.
     - Eles vo rir-se de mim.
     - So homens do deserto, e os homens do deserto
esto acostumados aos sinais.
     - Ento eles j devem saber.
     - No esto preocupados com isso. Acreditam quE
se tiverem que saber algo que Al deseje que eles saibam,
alguma pessoa lhes dir isso. J aconteceu muitas vezes antes.
Mas hoje, o mensageiro s tu.
     O rapaz pensou em Ftima. E resolveu ir ao encontro dos
chefes tribais.

                                    ***

     - Trago sinais do deserto - disse ao guarda que
ficava na porta da imensa tenda branca erguida no
centro do osis. - Quero ver os chefes.
     O guarda no disse nada. Entrou e demorou-se
muito l dentro. Depois saiu com um rabe jovem,
vestido de branco e ouro. O rapaz contou ao jovem o
que tinha visto. Ele pediu que esperasse um pouco e
tornou a entrar.
     A noite caiu. Entraram e saram vrios rabes e
mercadores. Aos poucos as fogueiras foram-se apagando, e o
osis comeou a ficar to silencioso como o deserto. S a luz
da grande tenda continuava acesa.
Durante todo esse tempo, o rapaz pensava em Ftima
ainda sem entender a conversa daquela tarde.

     Finalmente, depois de muitas horas de espera, o
guarda mandou que o rapaz entrasse.
     O que viu deixou-o extasiado. Nunca poderia imaginar que,
no meio do deserto, existisse uma tenda como aquela. O cho
estava coberto com os mais belos
tapetes que j tinha pisado, e do tecto pendiam lustres
de metal amarelo trabalhado, cobertos de velas acesas.
Os chefes tribais estavam sentados no fundo da tenda,
em semicrculo, descansando os braos e as pernas em
almofadas de seda com ricos bordados. Criados
entravam e saam com bandejas de prata cheias de
deliciosas iguarias e serviam ch. Alguns encarregavam-se de
manter acesas as brasas dos narguils. Um suave perfume de
fumo enchia o ambiente.
     Havia oito chefes, mas o rapaz logo percebeu qual era
o mais importante: um rabe vestido de branco e ouro,
sentado no centro do semicrculo. A seu lado estava o
jovem rabe com quem conversara um pouco antes.
     - Quem  o estrangeiro que fala de sinais? - perguntou um
dos chefes, olhando para ele.

     - Sou eu - respondeu.
     E contou o que tinha visto.
     - E porque  que o deserto ia contar isso a um estranho,
quando sabe que estamos h vrias geraes aqui? - disse outro
chefe tribal.
     - Porque os meus olhos ainda no se acostumaram
com o deserto, de forma que eu posso ver coisas que os
olhos demasiado acostumados j no conseguem ver.
      porque eu sei da Alma do Mundo, pensou consigo mesmo.
Mas no falou nada, porque os rabes no acreditam nestas
coisas.
     - O osis  um terreno neutro. Ningum ataca um
osis - disse um terceiro chefe.
     - Eu conto apenas o que vi. Se no quiserem acreditar,
no faam nada.
     Um silncio total abateu-se sobre a tenda, seguido
de uma exaltada conversa entre os chefes tribais. Falavam
num dialecto rabe que o rapaz no entendia, mas quando
ele fez meno de se ir embora, um guarda disse-lhe para
ficar.
     O rapaz comeou a sentir medo; os
 sinais diziam que havia alguma coisa errada. Lamentou
por ter conversado com o cameleiro a esse respeito.
     De repente, o velho que estava no centro sorriu
imperceptivelmente, e o rapaz tranquilizou-se. O velho no
tinha participado na discusso, e no dissera
 uma palavra at quele momento. Mas o rapaz, que j
estava acostumado com a Linguagem do Mundo, pde sentir uma
vibrao de Paz cruzando a tenda de ponta a ponta. A sua
intuio dizia que agira correctamente em ter vindo.
     A discusso acabou. Todos se calaram para ouvir
falar o velho. Depois, ele virou-se para o rapaz: desta
vez o seu rosto estava frio e distante.
     - H dois mil anos, numa terra distante, lanaram
num poo e venderam como escravo um homem que acreditava em
sonhos - disse o velho. - Os nossos mercadores compraram-no e
trouxeram-no para o Egipto. E todos ns sabemos que, quem
acredita em sonhos, tambm sabe interpret-los.
     Embora nem sempre consiga realiz-los, pensou
     o rapaz, lembrando-se da velha cigana.
     - Graas aos sonhos do fara com vacas magras
e gordas, esse homem livrou o Egipto da fome. O seu
nome era Jos. Era tambm um estrangeiro numa terra
estrangeira, como tu, e devia ter mais ou menos a tua idade.
     O silncio prolongou-se. Os olhos do velho mantinham-se
frios.
     - Sempre seguimos a Tradio. A Tradio salvou
o Egipto da fome naquela poca, e f-lo o mais rico
entre os povos. A Tradio ensina como os homens
devem atravessar o deserto e casar as suas filhas. A
Tradio diz que um osis  um terreno neutro, porque ambos os
lados tm osis, e so vulnerveis.
     Ningum pronunciou qualquer palavra enquanto
o velho falava.
     - Mas a Tradio diz tambm para acreditarmos
nas mensagens do deserto. Tudo o que sabemos foi
o deserto que nos ensinou.
     O velho fez um sinal e todos os rabes se levantaram. A

reunio estava para terminar. Os narguils foram apagados, e
os guardas colocaram-se em posio de sentido. O rapaz
preparou-se para sair, mas o velho falou ainda mais uma vez:
     - Amanh ns vamos romper um acordo que diz que ningum
no osis pode andar armado. Durante o dia inteiro aguardaremos
os inimigos. Quando o Sol descer no horizonte, os homens
devolver-me-o as armas. Por cada dez inimigos mortos,
recebers uma moeda de ouro.
     Todavia, as armas no podem sair do seu lugar
sem experimentarem a batalha. So caprichosas como
o deserto, e se as acostumamos com isso, da prxima
vez podem ter preguia de disparar. Se nenhuma
delas tiver sido utilizada amanh, pelo menos uma
ser usada: contra ti.
     O osis estava iluminado apenas pela lua cheia
quando o rapaz saiu. Eram vinte minutos de caminho
at  sua tenda, e ele comeou a andar.
     Estava assustado com tudo que tinha acontecido.
Tinha mergulhado na Alma do Mundo, e o preo por
acreditar naquilo era a sua vida. Uma aposta alta.
Mas tinha apostado alto desde o dia em que vendera
as suas ovelhas para seguir a sua Lenda Pessoal. E
como dizia o cameleiro, morrer amanh era to bom
como morrer em qualquer outro dia. Todo o dia era
feito para ser vivido ou para abandonar o mundo.
Tudo dependia apenas de uma palavra: Maktub.
     Caminhou em silncio. No estava arrependido.
Se morresse no dia seguinte, seria porque Deus no
estava com vontade de mudar o futuro. Mas teria
morrido depois de ter cruzado o estreito, trabalhado
numa loja de cristais, conhecido o silncio do deserto
e os olhos de Ftima. Tinha vivido intensamente cada
um dos seus dias, desde que sara de casa, h tanto
tempo atrs. Se morresse no dia seguinte, os seus
olhos teriam visto muito mais coisas do que os olhos
dos outros pastores, e o rapaz tinha orgulho disso.
     De repente ouviu um estrondo, e foi lanado subitamente
por terra, pelo impacto de uma rajada de vento cuja violncia
no conhecia. O lugar encheu-se de poeira, que quase encobriu
o luar. Na sua frente, um enorme cavalo branco empinou-se
soltando um relincho aterrador.
     O rapaz mal podia ver o que se passava, mas quando a
poeira assentou um pouco, sentiu um pavor como jamais tinha
sentido. Montando o cavalo estava
um cavaleiro todo vestido de negro, com um falco
no ombro esquerdo. Usava um turbante e um leno
que lhe cobria todo o rosto, deixando apenas entrever
os seus olhos. Parecia o mensageiro do deserto, mas
a sua presena era mais forte do que a de todas as
pessoas que tinha conhecido na vida.
     O estranho cavaleiro puxou a enorme espada curva
que trazia presa  sela. O ao brilhou com a luz da lua.
     - Quem ousou ler o voo dos gavies? - perguntou
com uma voz to forte que pareceu ecoar entre as
cinquenta mil tamareiras do Al-Fayoum.
     - Eu ousei - disse o rapaz. Lembrou-se imediatamente da
imagem de Santiago Matamouros, do seu cavalo branco com os
infiis sob as patas. Era exactamente assim. S que agora a

situao estava invertida.
     - Eu ousei - repetiu o rapaz, e baixou a cabea para
receber o golpe da espada. - Muitas vidas sero salvas,
porque vocs no contavam com a Alma do Mundo.
     A espada, porm, no desceu com rapidez. A mo
do estranho foi baixando lentamente, at que a ponta
da lmina tocou na testa do rapaz. Era to afiada que
saiu uma gota de sangue.
     O cavaleiro estava completamente imvel. O rapaz
tambm. No pensou um minuto sequer em fugir.
Dentro do seu corao, uma estranha alegria tomou
conta dele: ia morrer pela sua Lenda Pessoal. E por
Ftima. Os sinais eram verdadeiros, enfim. Ali estava
o Inimigo, e por causa disso ele no precisava de se
preocupar com a morte, porque havia uma Alma do
Mundo. Da a pouco estaria a fazer parte dela. Amanh o
Inimigo faria parte dela tambm.
     O estranho, porm, apenas mantinha a espada na
sua testa.
     - Porque  que leste o voo dos pssaros?
     - Li apenas o que os pssaros queriam contar. Eles
querem salvar o osis, e vocs morrero. O osis tem
mais homens que vocs.
     A espada continuava sobre a sua testa.
     - Quem s tu para mudar o destino de Al?
     - Al fez os exrcitos, e fez tambm os pssaros.
Al mostrou-me a linguagem dos pssaros. Tudo foi
escrito pela mesma Mo - disse o rapaz, lembrando-se das
palavras do cameleiro.
     O estranho finalmente retirou a espada da sua testa.
O rapaz sentiu um certo alvio. Mas no podia fugir.
     - Cuidado com as adivinhaes - disse o estranho. -- Quando as coisas esto escritas, no h como evit-las.
     - Apenas vi um exrcito - disse o rapaz. - No vi o
resultado de uma batalha.
     O cavaleiro parecia contente com a resposta. Mas
mantinha a espada na mo.
     - O que faz um estrangeiro numa terra estrangeira?
     - Procuro a minha Lenda Pessoal. Algo que o senhor no
entender nunca.
     O cavaleiro colocou a espada na bainha, e o falco
no seu ombro deu um grito estranho. O rapaz comeou a
descontrair-se.
     - Precisava testar a tua coragem - disse o estranho,
- A coragem  o dom mais importante para quem procura a
Linguagem do Mundo.
     O rapaz ficou surpreendido. Aquele homem falava
de coisas que pouca gente conhecia.
     -  preciso no abrandar nunca, mesmo tendo chegado to
longe - continuou ele. -  preciso amar o
deserto, mas nunca confiar inteiramente nele. Por
que o deserto  uma prova para todos os homens: elE
testa cada um dos seus passos, e mata quem se distrai.
     As suas palavras lembravam as palavras do velho rei.
     - Se os guerreiros chegarem, e se a tua cabea ainda
estiver sobre o pescoo depois que o Sol morrer, procura-me -
disse o estranho.
     A mesma mo que tinha segurado a espada, empunhou um

chicote. O cavalo empinou-se de novo, levantando uma nuvem de
poeira.
     - Onde mora o senhor? - gritou o rapaz, enquanto
o cavaleiro se afastava.
     A mo com o chicote apontou em direco ao Sul.
     O rapaz tinha encontrado o Alquimista.

     Na manh seguinte havia dois mil homens armados entre as
tamareiras de Al-Fayoum. Antes que o sol chegasse ao topo do
cu, quinhentos guerreiros
apareceram no horizonte. Os cavaleiros entraram no
osis pela parte Norte; parecia uma expedio de paz,
mas havia armas escondidas sob os mantos brancos.
Quando chegaram perto da grande tenda que ficava
no centro de Al-Fayoum, puxaram as cimitarras e as
espingardas. E atacaram uma tenda vazia.
     Os homens do osis cercaram os cavaleiros do
deserto. Em meia hora havia quatrocentos e noventa
e nove corpos espalhados pelo cho. As crianas estavam no
outro extremo do bosque de tamareiras, e no viram nada. As
mulheres rezavam pelos seus maridos nas tendas, e tambm no
viram nada. No fosse pelos corpos espalhados, o osis parecia
viver um dia normal.
     Apenas um guerreiro foi poupado, o comandante
dos assaltantes.  tarde foi conduzido diante dos
chefes tribais, que lhe perguntaram porque tinha quebrado
a Tradio. Ele respondeu que os seus homens
estavam com fome e sede, exaustos por tantos dias
de batalha, e tinham decidido tomar um osis para
poder recomear a luta.
     O chefe tribal disse que lamentava pelos guerreiros, mas
a Tradio deveria ser respeitada em todas as circunstncias.
A nica coisa que mudava no deserto eram as dunas, quando
soprava o vento.
     Depois condenou o comandante a uma morte sem
honra. Ao invs do ao ou da bala de fuzil, ele foi
enforcado numa tamareira tambm ela morta. O seu
corpo balanou ao vento do deserto.
     O chefe tribal chamou o estrangeiro e deu-lhe
cinquenta moedas de ouro. Depois tornou a recordar
a histria de Jos no Egipto, e pediu-lhe que fosse o
Conselheiro do osis.

     Quando o Sol se ps por completo, e as primeiras
estrelas comearam a aparecer (no brilhavam muito
porque continuava a lua cheia), o rapaz caminhou em
direco ao Sul. Havia apenas uma tenda, e alguns rabes que
passavam diziam que o lugar era cheio de djins. Mas o rapaz
sentou-se e esperou durante muito tempo.
     O Alquimista apareceu quando a lua j estava alta
no cu. Trazia dois gavies mortos no ombro.
     - Aqui estou - disse o rapaz.
     - No devias estar - respondeu o Alquimista. - Ou a tua
Lenda Pessoal era chegar at aqui?
     - Existe uma guerra entre os cls. No  possvel
cruzar o deserto.
     O Alquimista desceu do seu cavalo, e fez um sinal
para que o rapaz entrasse com ele na tenda. Era uma

tenda igual a todas as outras que tinha conhecido no
osis - excepto a grande tenda central, que tinha o
eixo dos contos de fadas. - Ele procurou os aparelhos,
os fornos de alquimia, mas no encontrou nada de
parecido. Havia apenas uns poucos livros empilhados,
um fogo para cozinhar, e os tapetes cheios de
desenhos misteriosos.
     - Senta-te, que vou preparar um ch - disse o Alquimista.
- E comeremos juntos estes gavies.
     O rapaz suspeitou que eram os mesmos pssaros
que tinha visto no dia anterior, mas no disse nada.
O Alquimista acendeu o lume, e em pouco tempo
um delicioso cheiro de carne enchia a tenda. Era melhor que o
perfume dos narguils.
     - Por que me quis ver? - disse o rapaz.
     - Por causa dos sinais - respondeu o Alquimista. - O
vento contou-me que virias. E que ias precisar de ajuda.
     - No, no sou eu.  o outro estrangeiro, o Ingls.
Ele  que o estava procurando.
     - Ele tem que encontrar outras coisas antes de me
encontrar. Mas est no caminho certo. Passou a olhar
o deserto.
     - E eu?
     - Quando se quer uma coisa, todo o Universo conspira para
que a pessoa consiga realizar o seu sonho - disse o
Alquimista, repetindo as palavras do velho rei. O rapaz
entendeu. Outro homem estava no seu caminho, para conduzi-lo
at  sua Lenda Pessoal.
     - Ento o senhor vai-me ensinar?
     - No. J sabes tudo o que precisas saber. Vou
apenas fazer-te seguir em direco ao teu tesouro.
     - Existe uma guerra entre os cls - repetiu o rapaz
     - Eu conheo o deserto.
     - J encontrei o meu tesouro. Tenho um camelo, o
dinheiro da loja de cristais e cinquenta moedas dE
ouro. Posso ser um homem rico na minha terra.
     - Mas nada disso est perto das Pirmides - disse
o Alquimista.
     - Tenho Ftima.  um tesouro maior do que tudo
o que consegui juntar.
     - Tambm ela no est perto das Pirmides.
     Comeram os gavies em silncio. O Alquimista
abriu uma garrafa e derramou um lquido vermelho
no copo do seu convidado. Era vinho, um dos melhores vinhos
que ele tinha tomado na sua vida. Mas o vinho era proibido
pela lei.
     - O mal no  o que entra na boca do homem - disse o
Alquimista. - O mal  o que sai dela.
     O rapaz comeou a sentir-se alegre com o vinho.
Mas o Alquimista inspirava-lhe um pouco de medo.
Sentaram-se do lado de fora da tenda, a olhar o brilho
da lua, que empalidecia as estrelas.
     - Bebe e distrai-te um pouco - disse o Alquimista,
notando que o rapaz comeava a ficar cada vez mais
alegre. - Repousa como um guerreiro sempre repousa
antes do combate. Mas no esqueas que o teu
corao est onde est o teu tesouro. E que o teu
tesouro precisa de ser encontrado, para que tudo isso

que descobriste no caminho possa fazer sentido.
     Amanh vende o teu camelo e compra um cavalo.
Os camelos so traioeiros: andam milhares de passos, e no
do qualquer sinal de cansao. De repente, porm, ajoelham e
morrem. Os cavalos vo-se finando aos poucos. E poders saber
sempre o quanto podes esperar deles, ou a altura em que vo
morrer.

                                    ***

     Na noite seguinte o rapaz apareceu com um cavalo diante
da tenda do Alquimista. Esperou um pouco e ele apareceu,
montado no seu animal, e com o falco no ombro esquerdo.
     - Mostra-me a vida no deserto - disse o Alquimista.
- S quem l consegue achar a vida, pode um dia
encontrar tesouros.
     Comearam a caminhar pelas areias, com a lua
ainda brilhando sobre os dois.
     No sei se vou conseguir encontrar a vida no deserto,
pensou o rapaz. No conheo ainda o deserto.
     Quis virar-se e dizer isto ao Alquimista, mas tinha
medo dele. Chegaram ao lugar das pedras, onde o
rapaz tinha visto os gavies no cu; entretanto, tudo
era silncio e vento.
     - No consigo encontrar vida no deserto - disse o
rapaz. - Sei que ela existe, mas no consigo encontr-la.
     - A vida atrai a vida - respondeu o Alquimista.
     E o rapaz compreendeu o que ele queria dizer.
Soltou de imediato as rdeas do seu cavalo e este saiu
livremente pelas pedras e areia. O Alquimsta seguia
em silncio, e o cavalo do rapaz andou durante quase
meia hora. J no avistavam as tamareiras do osis,
apenas a lua gigantesca no cu, e as rochas que ela
fazia brilhar como prata. De repente, num lugar onde
jamais havia estado antes, o rapaz notou que o seu
cavalo parava.
     - Aqui existe vida - respondeu o rapaz ao Alquimista. -
No conheo a linguagem do deserto, mas o meu cavalo conhece a
linguagem da vida.
     Desmontaram. O Alquimista no disse nada. Comeou a olhar
para as pedras, caminhando devagar. De repente, parou, e
baixou-se com todo o cuidado. Havia um buraco no cho, entre
as pedras; o Alquimista enfiou a mo dentro do buraco, e
depois enfiou o brao at ao ombro. Alguma coisa se mexeu no
fundo e os olhos do Alquimista (ele s podia ver-lhe os olhos)
contraram-se de esforo e tenso. O brao
parecia lutar com o que estava dentro do buraco. Mas
dum salto, que assustou o seu companheiro, o Alquimista
retirou o brao e ficou imediatamente de p. A sua mo
segurava uma serpente agarrada pela cauda.
O rapaz tambm deu um salto, s que para trs. A
cobra debatia-se sem cessar, emitindo rudos e silvos
que feriam o silncio do deserto. Era uma naja, cujo
veneno podia matar um homem em poucos minutos.
Cuidado com o veneno, chegou a pensar o rapaz.
Mas o Alquimista tinha colocado a mo no buraco, e
devia ter sido mordido. O seu rosto, porm, estava
tranquilo. O Alquimista tem duzentos anos, tinha

dito o Ingls. J devia saber como lidar com as serpentes do
deserto.      O rapaz viu quando o seu companheiro foi at
junto do cavalo e puxou a longa espada em forma de
lua-crescente. Com ela, traou um crculo no cho e
colocou a cobra no meio do crculo. O animal aquietou-se
imediatamente.
     - Podes ficar tranquilo - disse o Alquimista. - Ela
no vai sair dali. E tu descobriste a vida no deserto, o
sinal de que eu estava a precisar.
     - Por que  que isso era to importante?
     - Porque as Pirmides esto no meio do deserto.
     O rapaz no queria ouvir falar nas Pirmides. O
seu corao estava pesado e triste, desde a noite
anterior. Porque seguir em busca do seu tesouro,
significava ter que abandonar Ftima.
     - Vou guiar-te atravs do deserto - disse o Alquimista.
     - Quero ficar no osis - respondeu o rapaz. - J
encontrei Ftima. E ela, para mim, vale mais que o
tesouro.
     - Ftima  uma mulher do deserto - disse o Alquimista. -
Sabe que os homens devem partir, para poderem voltar. Ela j
encontrou o seu tesouro: tu. Agora espera de ti que tu
encontres o que procuras.
     - E se eu resolver ficar?
     - Sers o Conselheiro do Osis. Tens ouro suficiente para
comprar muitas ovelhas e muitos camelos. Vais casar-te com
Ftima e vivero felizes durante o
primeiro ano. Aprenders a amar o deserto e vais
conhecer cada uma das cinquenta mil tamareiras.
Percebers como elas crescem, mostrando um mundo
que muda sempre. E irs compreender os sinais cada
vez melhor, porque o deserto  um mestre superior
a todos os mestres.
     No segundo ano lembrar-te-s que existe um tesouro. Os
sinais comearo a falar insistentement
sobre isso, e tentars ignor-los. Usars o teu conhecimento
apenas para o bem-estar do osis e dos seus
habitantes. Os chefes tribais agradecer-te-o por isso.
Os teus camelos dar-te-o riqueza e poder.
     No terceiro ano os sinais continuaro a falar sobre
o teu tesouro e a tua Lenda Pessoal. Ficars noites
e noites andando pelo osis, e Ftima ser uma mulher
triste, porque fez com que o teu caminho fosse interrompido.
Mas tu continuars a am-la, e sers correspondido. Irs
lembrar-te que ela jamais pediu que ficasses, porque uma
mulher do deserto sabe esperar o seu homem. Por isso no vais
culp-la. Mas vais andar muitas noites pelas areias do
deserto, por entre as tamareiras, pensando que talvez pudesses
ter ido adiante, ter confiado mais no teu amor
por Ftima. Porque o que te manteve no osis foi
o teu prprio medo de no retornar. E nessa altura, os
sinais indicar-te-o que o teu tesouro est enterrado
para sempre.
     No quarto ano, os sinais abandonar-te-o porque
no quiseste ouvi-los. Os Chefes Tribais compreendero isso, e
tu sers destitudo do Conselho. Por essa altura sers um rico
comerciante, com muitos camelos e imensas mercadorias. Mas
passars o resto dos teus dias vagueando entre as tamareiras e

o deserto sabendo que no cumpriste a tua Lenda Pessoal, e que
agora  tarde demais para o fazeres.
     Sem jamais teres compreendido que o Amor nunca impede um
homem de seguir a sua Lenda Pessoal. Quando isso acontece, 
porque no  o verdadeiro
Amor, aquele que fala a Linguagem do Mundo.

     O Alquimista desfez o crculo que tinha traado
na areia, e a cobra correu e desapareceu entre as pedras. O
rapaz recordava-se do mercador de cristais que sempre quis ir
a Meca, e do Ingls que procurava um Alquimista. O rapaz
recordava-se de uma mulher
que confiou no deserto, e o deserto um dia trouxe-lhe a pessoa
que desejava amar.
     Montaram nos seus cavalos, e desta vez foi o rapaz
que seguiu o Alquimista. O vento trazia os rudos do
osis, e ele tentava identificar a voz de Ftima. Naquele dia
no tinha ido ao poo por causa da batalha.      Mas nessa
noite, enquanto olhavam uma cobra
dentro de um crculo, o estranho cavaleiro com o seu
falco ao ombro tinha falado de amor e de tesouros,
das mulheres do deserto e da sua Lenda Pessoal.
     - Vou com o senhor - disse o rapaz. E imediatamente
sentiu paz no seu corao.
     - Partimos amanh antes que o Sol nasa - foi a
nica resposta do Alquimista.

     O rapaz passou a noite inteira em claro. Duas horas
antes do amanhecer, acordou um dos rapazes quE
dormia na sua tenda, e pediu que lhe mostrasse ondE
morava Ftima. Saram juntos, e foram at l. Em troca
o rapaz deu-lhe dinheiro para comprar uma ovelha.
     Depois pediu que descobrisse onde a jovem dormia, e que a
acordasse e lhe dissesse que ele estava  sua espera. O jovem
rabe fez isso, e em troca recebeu dinheiro para comprar outra
ovelha.
     - Agora deixa-nos ss - disse o rapaz ao jovem
rabe, que voltou para a sua tenda para dormir, orgulhoso de
ter ajudado o Conselheiro do Osis; e contente por ter
dinheiro para comprar ovelhas.
     Ftima apareceu  porta da tenda. Os dois saram
para passear entre as tamareiras. O rapaz sabia que
era contra a Tradio, mas isso no tinha nenhuma
importncia agora.
     - Vou partir - disse. - E quero que saibas que vou
voltar. Amo-te porque...
     - No digas nada - interrompeu Ftima. - Amas
porque se ama. No h qualquer razo para amar.
     Mas o rapaz continuou:
     - Amo-te, porque tive um sonho, encontrei um rei,
vendi cristais, cruzei o deserto, os cls declararam
guerra, e vim a um poo para saber onde morava um
Alquimista. Amo-te, porque todo o Universo conspirou para que
eu chegasse at ti.
     Os dois abraaram-se. Era a primeira vez que os
seus corpos se tocavam.
     - Voltarei - repetiu o rapaz.
     - Antes eu olhava o deserto com desejo - disse Ftima. -

agora ser com esperana. Meu pai um dia partiu, mas voltou
para minha me, e continua a voltar sempre.
     E no disseram mais nada. Andaram um pouco entre
as tamareiras, e o rapaz deixou-a na porta da tenda.
     - Voltarei como o teu pai voltou para a tua me - disse.
   Reparou que os olhos de Ftima estavam cheios
de lgrimas.
     - Choras?
     - Sou uma mulher do deserto - disse ela, escondendo o
rosto. - Mas acima de tudo, sou uma mulher.

     Ftima entrou na tenda. Da a pouco o Sol ia aparecer.
Quando o dia chegasse, sairia para fazer aquilo que tinha
feito durante tantos anos; mas tudo tinha
mudado. O rapaz j no estaria no osis, e o osis
no teria mais o significado que tinha at h pouco
tempo. No seria mais o lugar com cinquenta mil tamareiras e
trezentos poos, onde os peregrinos chegavam
contentes depois de uma longa viagem. O
osis, daquele dia em diante, seria um lugar vazio
para ela. A partir daquele dia, o deserto ia ser mais
importante do que o osis. Iria olhar sempre para o
deserto, tentando saber qual a estrela que o rapaz
estava seguindo em busca do seu tesouro. Haveria
de enviar-lhe os seus beijos pelo vento, na esperana
de que este tocasse o rosto do rapaz, e lhe contasse
que estava viva, a esperar por ele, como uma mulher
espera um homem de coragem, que segue em busca
de sonhos e tesouros. A partir daquele dia, o deserto
iria ser apenas uma coisa: a esperana da sua volta.

     - No penses no que ficou para trs - disse o
Alquimista, quando comearam a cavalgar pelas areias do
deserto. - Tudo est gravado na Alma do Mundo,
e ali permanecer para sempre.
     - Os homens sonham mais com a volta do que com
a partida - disse o rapaz, que j estava a acostumar-se de
novo com o silncio do deserto.
     - Se o que encontraste  feito de matria pura, jamais
apodrecer. E poders voltar um dia. Se foi apenas um momento
de luz, como a exploso de uma estrela, ento no vais
encontrar nada quando voltares. Mas
ters visto uma exploso de luz. E s isso j valeu a pena ser
vivido.
     O homem falava em linguagem de alquimia. Mas
o rapaz sabia que o seu companheiro se estava a
referir a Ftima.
     Era difcil no pensar no que havia ficado para trs.
O deserto, com a sua paisagem quase sempre igual,
costumava encher-se de sonhos. O rapaz ainda via
as tamareiras, os poos, e o rosto da mulher amada.
Via o Ingls com o seu laboratrio, e o cameleiro que
era um mestre e no o sabia. Talvez o Alquimista
jamais tenha amado, pensou ele.
     O Alquimista cavalgava na sua frente, com o falco
no ombro. O falco conhecia bem a linguagem do deserto,
e quando paravam, ele saa do ombro do Alquimista e
voava em busca de alimento. No primeiro dia trouxe

uma lebre. No segundo dia trouxe dois pssaros.
     De noite, estendiam os seus cobertores e no acendiam
fogueiras. As noites do deserto eram frias, e foram ficando
escuras  medida que a lua comeou a
diminuir no cu. Durante uma semana andaram em
silncio, conversando apenas sobre as precaues necessrias
para evitar os combates entre os cls. A guerra continuava, e
o vento s vezes trazia o cheiro
adocicado de sangue. Alguma batalha tinha sido travada por
perto, e o vento recordava ao rapaz que existia a Linguagem
dos Sinais, sempre pronta para
mostrar o que os seus olhos no conseguiam ver.
     Na noite do stimo dia de viagem, o Alquimista
resolveu acampar mais cedo do que de costume. O
falco saiu em busca de caa, e ele tirou o cantil da
gua e ofereceu-o ao rapaz.
     - Agora ests quase no final da viagem - disse o
Alquimista. - Os meus parabns por teres seguido a
tua Lenda Pessoal.
     - E o senhor est-me a guiar em silncio - disse o
rapaz. - Pensei que me ia ensinar aquilo que sabe.
Faz algum tempo que estive no deserto com um homem que tinha
livros de Alquimia. Mas no consegui aprender nada.
     - S existe uma maneira de aprender - respondeu
o Alquimista. -  atravs da aco. Tudo o que precisavas
saber, a viagem ensinou-te. Falta apenas uma coisa.
     O rapaz quis saber o que era, mas o Alquimista
manteve os olhos fixos no horizonte, esperando pela
volta do falco.
     - Por que lhe chamam Alquimista?
     - Porque o sou.
     - E o que havia de errado com os outros alquimistas, que
procuraram ouro e no o conseguiram?
     - Buscavam apenas ouro - respondeu o seu companheiro. -
Buscavam o tesouro da sua Lenda Pessoal, sem desejarem viver a
prpria Lenda.
     - O que me falta saber? - insistiu o rapaz.
     Mas o Alquimista continuou a olhar o horizonte.
Depois de algum tempo o falco regressou com a presa. Cavaram
um buraco e acenderam a fogueira no seu interior, para que
ningum pudesse ver a luz das chamas.
     - Sou um Alquimista porque sou um Alquimista
- disse, enquanto preparavam a comida. - Aprendi a
cincia de meus avs, que aprenderam de seus avs,
e assim at  criao do mundo. Naquela poca, toda
a cincia da Grande Obra podia ser escrita numa
simples esmeralda. Mas os homens no deram importncia s
coisas simples, e comearam a escrever tratados,
interpretaes, e estudos filosficos. Comearam tambm a
dizer que sabiam melhor o caminho que os outros. Mas a Tbua
da Esmeralda continua viva at hoje.
     - O que estava escrito na Tbua da Esmeralda? - quis
saber o rapaz.
     O Alquimista comeou a desenhar na areia, e no
demorou mais do que cinco minutos. Enquanto ele
desenhava, o rapaz lembrou-se do velho rei, e da
praa onde se tinham encontrado um dia; parecia-lhe que tinham
passado muitos e muitos anos.

     - Eis o que estava escrito na Tbua da Esmeralda - disse
o Alquimista, quando acabou de escrever.
     O rapaz aproximou-se e leu as palavras na areia.
     -  um cdigo - disse o rapaz, um pouco decepcionado com
a Tbua da Esmeralda. - Parece-se com os livros do Ingls.
     - No - respondeu o Alquimista. -  como o voo
dos gavies; no deve ser compreendido simplesmente pela
razo. A Tbua da Esmeralda  uma passagem directa para a Alma
do Mundo.
     Os sbios entenderam que este mundo natural 
apenas uma imagem e uma cpia do Paraso. A simples existncia
deste mundo  a garantia de que existe um mundo mais perfeito
que ele. Deus criou-o para
que, atravs das coisas visveis, os homens pudessem
compreender os seus ensinamentos espirituais, e as
maravilhas da sua sabedoria. Isso  que eu chamo de Aco.
     - Poderei vir a entender a Tbua da Esmeralda? -
perguntou o rapaz.
     - Talvez, se estivesses num laboratrio de
Alquimia, fosse agora o momento certo para estudar a melhor
maneira de entender a Tbua da Esmeralda. Todavia, ests no
Deserto. Ento mergulha no deserto.
Ele serve para compreender o mundo tanto como
qualquer outra coisa sobre a face da terra. Tu nem
precisas de entender o deserto: basta contemplar um
simples gro de areia, e vers nele todas as maravilhas
da Criao.
     - Como fao para mergulhar no deserto?
     - Escuta o teu corao. Ele conhece todas as coisas,
porque veio da Alma do Mundo, e um dia a ela retornar.
     Andaram em silncio mais dois dias. O Alquimista estava
muito mais cauteloso, porque se aproximavam da zona de
combates mais violentos. E o rapaz procurava escutar o seu
corao.
     Era um corao difcil; dantes estava sempre pronto a
partir, e agora queria chegar a todo o custo. s vezes, o seu
corao ficava muitas horas contando histrias de saudades,
outras vezes emocionava-se com o nascer do sol no deserto, e
fazia o rapaz chorar escondido. O corao batia mais rpido
quando falava para o rapaz sobre o tesouro e ficava mais
vagaroso quando os olhos do rapaz se perdiam no horizonte sem fim do deserto. Mas nunca se calava, mesmo que o rapaz
no trocasse uma s palavra com o Alquimista.
     - Por que temos que escutar o nosso corao? - perguntou
o rapaz quando acamparam naquele dia.
     - Porque, onde ele estiver,  onde estar o teu
tesouro.
     - O meu corao est agitado - disse o rapaz. - Tem
sonhos, emociona-se, e est apaixonado por uma
mulher do deserto. Pede-me coisas e no me deixa
dormir muitas noites, quando penso nela.
     -  bom. O teu corao est vivo. Continua a ouvir
o que ele tem para te dizer.
     Nos trs dias seguintes os dois passaram por alguns
guerreiros, e viram outros guerreiros no horizonte. O corao
do rapaz comeou a falar sobre o medo. Contava ao rapaz

histrias que tinha ouvido da Alma do Mundo, histrias de homens que foram em busca dos seus tesouros e jamais os encontraram.
s vezes assustava o rapaz com o pensamento de
que poderia no conseguir o tesouro, ou que poderia
encontrar a morte no deserto. Outras vezes dizia para
o rapaz que j estava satisfeito, que j tinha encontrado um
amor e ganho muitas moedas de ouro.
     - O meu corao  traioeiro - disse o rapaz ao
Alquimista, quando pararam para descansar um
pouco os cavalos. - No quer que eu continue.
     - Isso  bom - respondeu o Alquimista. - Prova
que o teu corao est vivo.  natural teres medo de
trocar por um sonho tudo aquilo que j conseguiste.
     - Ento, para que devo escutar o meu corao?
     - Porque no vais conseguir jamais mant-lo calado. E
mesmo que finjas no escutar o que ele diz, ele estar dentro
do teu peito, repetindo sempre o que
pensa sobre a vida e o mundo.
     - Mesmo que ele seja traioeiro?
     - A traio  o golpe que no esperas. Se conheces
bem o teu corao, ele jamais conseguir isso. Porque
conhecers os teus sonhos e os teus desejos, e sabers
lidar com eles. Ningum consegue fugir do seu corao
Por isso  melhor escutares o que ele diz. Para
que jamais sofras um golpe que no esperas.

     O rapaz continuou a escutar o seu corao, enquanto
caminhavam pelo deserto. Passou a conhecer as suas artimanhas
e os seus truques, e passou a aceit-lo como era. Ento o
rapaz deixou de ter medo, e deixou de ter vontade de voltar,
porque certa tarde o seu corao disse-lhe que estava contente. Mesmo que eu reclame um pouco - dizia o seu corao -  porque sou um corao de homem, e os coraes dos
homens so assim. Tm medo de realizar os seus
maiores sonhos, porque acham que no merecem alcan-los, ou
no podem consegui-los. Ns, os coraes, morremos de medo s
de pensar em amores que partiram para sempre, em momentos que
poderiam ter sido bons e que no o foram, em tesouros que
poderiam ter sido descobertos e ficaram para
sempre escondidos na areia. Porque quando isso
acontece, acabamos sofrendo muito.
     - O meu corao tem medo de sofrer - disse o rapaz
para o Alquimista, uma noite em que olhavam o cu
sem lua.
     - Diz-lhe que o medo de sofrer  pior do que o
prprio sofrimento. E que nenhum corao jamais
sofreu quando foi em busca dos seus sonhos, porque
cada momento de busca  um momento de encontro
com Deus e com a Eternidade.
     Cada momento de busca  um momento de encontro, disse o
rapaz ao seu corao. Enquanto procurei o meu
tesouro, todos os dias foram luminosos, porque eu sabia que
cada hora fazia parte do sonho de o encontrar. Enquanto
procurei este meu tesouro, descobri no caminho coisas que
jamais teria sonhado encontrar, se no tivesse tido a coragem
de tentar coisas impossveis aos pastores.
     Ento o seu corao ficou quieto por uma tarde
inteira. De noite, o rapaz dormiu tranquilo, e quando
acordou, o seu corao comeou a contar-lhe as coisas

da Alma do Mundo. Disse que todo o homem feliz
era um homem que trazia Deus dentro de si. E que a
felicidade poderia ser encontrada num simples gro
de areia do deserto, como o Alquimista tinha dito.
Porque um gro de areia  um momento da Criao,
e o Universo demorou milhares de milhes de anos
para cri-lo.
     Cada homem na face da Terra tem um tesouro que
est esperando por ele, disse o seu corao. Ns, os
coraes, costumamos falar pouco destes tesouros,
porque os homens j no querem mais encontr-los.
S falamos dele s crianas. Depois deixamos que a
vida encaminhe cada um em direco ao seu destino.
Mas, infelizmente, poucos seguem o caminho que lhes
est traado, e que  o caminho da Lenda Pessoal e da
felicidade. A maioria acha o mundo uma coisa
ameaadora - e por causa disso o mundo torna-se uma
coisa ameaadora. Ento ns, os coraes, vamos
falando cada vez mais baixo, mas no nos calamos
nunca. E torcemos para que as nossas palavras no
sejam ouvidas: no queremos que os homens sofram,
porque no seguiram os seus coraes.
     - Por que  que os coraes no dizem aos homens
que devem continuar seguindo os seus sonhos? - perguntou o
rapaz ao Alquimista.
     - Porque, neste caso, o corao  o que sofre mais.
E os coraes no gostam de sofrer.
     O rapaz entendeu o seu corao a partir daquele
dia. Pediu-lhe que nunca mais o deixasse. Pediu-lhe
que, quando estivesse longe dos seus sonhos, o corao
apertasse o peito e desse o sinal de alarme. O rapaz jurou que
sempre que escutasse esse sinal, tambm o seguiria.
     Naquela noite falou de todos estes assuntos ao
Alquimista. E o Alquimista entendeu que o corao do rapaz
tinha voltado para a Alma do Mundo.
     - O que fao agora? - perguntou o rapaz.
     - Segue em direco s Pirmides - disse o Alquimista. -
E continua atento aos sinais. O teu corao j  capaz de te
mostrar o tesouro.
     - Era isto que me faltava saber?
     - No - respondeu o Alquimista. - O que te falta
saber  o seguinte:

     Sempre antes de realizar um sonho, a Alma do
     Mundo resolve testar tudo aquilo que foi aprendido,
durante a caminhada. Faz isto no porque seja m,
mas para que possamos, juntamente com o nosso sonho,
conquistar tambm as lies que aprendemos seguindo em
direco a ele.  o momento em que a
maior parte das pessoas desiste.  o que chamamos,
em linguagem do deserto, morrer de sede quando
as tamareiras j se avistam no horizonte.
     Uma busca comea sempre com a Sorte do
Principiante. E termina sempre com a Prova do
Conquistador.
     O rapaz lembrou-se de um velho provrbio da sua
terra. Dizia que a hora mais escura  a que vem
precisamente antes do sol nascer.


     No dia seguinte apareceu o primeiro sinal concreto de
perigo. Trs guerreiros aproximaram-se e perguntaram-lhes que
faziam os dois por ali.
     - Vim caar com o meu falco - respondeu o Alquimista.
     - Precisamos revist-los para ver se no levam armas -
disse um dos guerreiros.
     O Alquimista desceu devagar do seu cavalo. O
rapaz fez o mesmo.
     - Para qu tanto dinheiro? - perguntou o guerreiro,
quando viu a bolsa do rapaz.
     - Para chegar ao Egipto - disse ele.
     O guarda que revistou o Alquimista encontrou um
pequeno frasco de cristal cheio de lquido, e um ovo de
vidro amarelado, pouco maior que o ovo de uma galinha.
     - Que so estas coisas? - perguntou o guarda.
     -  a Pedra Filosofal e o Elixir da Longa Vida.  a
grande obra dos Alquimistas. Quem tomar este elixir
jamais ficar doente, e uma lasca desta pedra transforma
qualquer metal em ouro.
     Os guardas riram a valer, e o Alquimista riu com
eles. Tinham achado a resposta muito engraada, e
deixaram-nos partir sem maiores contratempos, com
todos os seus pertences.
     - O senhor est louco? - perguntou o rapaz ao Alquimista,
quando j se tinham distanciado bastante.
- Para que fez isto?
     - Para te mostrar uma simples lei do mundo - respondeu o
Alquimista. - Quando temos os grandes tesouros diante de ns,
nunca nos apercebemos. E sabes
porqu? Porque os homens no acreditam em tesouros.

     Continuaram a andar pelo deserto. A cada dia que
passava, o corao do rapaz ia ficando mais silencioso. J no
queria saber das coisas passadas ou das      coisas futuras;
contentava-se em contemplar tambm
     o deserto, e em brindar com o rapaz  Alma do
     Mundo. Ele e o seu corao tornaram-se grandes amigos -
um passou a ser incapaz de trair o outro.
     Quando o corao falava, era para dar estmulo e
     fora ao rapaz, que s vezes achava terrivelmente
maadores os dias de silncio. O corao contou-lhe
pela primeira vez as suas grandes qualidades: a sua
coragem para abandonar as ovelhas e viver a sua
Lenda Pessoal; e o seu entusiasmo na loja de cristais.
  Contou-lhe tambm mais uma coisa, que o rapaz
nunca tinha notado: os perigos que passaram perto e
que ele nunca tinha percebido. O corao disse que
certa vez escondera a pistola que ele tinha roubado
ao pai, pois havia uma grande possibilidade de se
vir a ferir com ela. E recordou um dia que o rapaz
passara mal em pleno campo, a vomitar, e depois
dormira por muito tempo: estavam dois assaltantes
mais adiante, que planeavam roubar-lhe as ovelhas,
e assassin-lo. Mas como o rapaz demorava a aparecer, foram-se
embora, achando que ele tinha mudado de itinerrio.
     - Os coraes ajudam sempre os homens? - perguntou o
rapaz ao Alquimsta.

     - S os que vivem a sua Lenda Pessoal. Mas ajudam
muito as crianas, os bbados, e os velhos.
     - Quer dizer ento que no h perigo?
     - Quer dizer apenas que os coraes se esforam
ao mximo - respondeu o Alquimista.
     Certa tarde passaram pelo acampamento de um dos
cls. Havia rabes com vistosas roupas brancas, com
armas ensarilhadas em todos os cantos. Os homens
fumavam narguil e conversavam sobre os combates.
Ningum prestou a mnima ateno aos dois viajantes.
     - No h qualquer perigo - disse o rapaz, quando
j se tinham afastado um pouco do acampamento.
     O Alquimista ficou furioso.
     - Confia no teu corao - disse - mas no te esqueas de
que ests no deserto. Quando os homens esto em guerra, a Alma
do Mundo tambm sente os gritos
de combate. Ningum deixa de sofrer as consequncias de tudo
quanto se passa debaixo do Sol.
     Tudo  uma coisa s e nica, pensou o rapaz.
     E como se o destino quisesse mostrar que o velho
Alquimista estava certo, dois cavaleiros surgiram por
detrs dos viajantes.
     - No podem seguir adiante - disse um deles. - Vocs
esto nas areias onde os combates so travados.
     - No vou muito longe - respondeu o Alquimista,
olhando profundamente nos olhos dos guerreiros.
Eles ficaram imveis por alguns minutos, e depois
concordaram que seguissem viagem.
     O rapaz assistiu a tudo aquilo fascinado.
     - O senhor dominou os guardas com o olhar - comentou ele.
    - Os olhos mostram a fora da alma - respondeu o
     Alquimista.
     Era verdade, pensou o rapaz. Tinha percebido que,
no meio da multido de soldados no acampamento,
um deles olhara fixamente para os dois. E estava to
distante, que no dava sequer para ver com nitidez a
sua face. Mas o rapaz tinha a certeza de que esse
homem estava a observ-los.
     Finalmente, quando comearam a atravessar uma
montanha que se estendia por todo o horizonte, o
Alquimista disse que faltavam dois dias para chegarem at s
Pirmides.
     - Se nos vamos separar em seguida, ensine-me Alquimia -
solicitou o rapaz.
     - Tu j sabes.  penetrar na Alma do Mundo, e
descobrir o tesouro que ela reservou para ns.
     - No  isso o que quero saber. Falo de transformar
chumbo em ouro.
     O Alquimista respeitou o silncio do deserto, e s
respondeu ao rapaz quando pararam para comer.
     - Tudo no Universo evolui - disse ele. - E para os
sbios, o ouro  o metal mais evoludo. No perguntes
porqu; no sei. Sei apenas que a Tradio est
sempre certa. Os homens  que no interpretaram
bem as palavras dos sbios. E ao invs de smbolo da
evoluo, o ouro passou a ser o sinal das guerras.
     - As coisas falam muitas linguagens - disse o rapaz. - Vi
quando o relincho do camelo era apenas um relincho, depois

passou a ser sinal de perigo, e
finalmente tornou-se de novo num relincho.
     Mas calou-se. O Alquimista devia saber tudo aquilo.
     - Conheci verdadeiros alquimistas - continuou. -
Fechavam-se no laboratrio e tentavam evoluir como o ouro;
descobriam a Pedra Filosofal. Porque tinham
compreendido que quando uma coisa evolui,
tambm evolui tudo o que est  sua volta.
     Outros conseguiram a Pedra por acidente. J tinham
o dom, as suas almas estavam mais despertas que a das
outras pessoas. Mas estes no contam, porque so raros.
     Outros, enfim, buscavam apenas o ouro. Estes
jamais descobriram o segredo. Esqueceram-se de que
o chumbo, o cobre, o ferro, tambm tm a sua Lenda
Pessoal para cumprir. Quem interfere na Lenda
Pessoal dos outros, nunca descobrir a sua.
     As palavras do Alquimista soaram como uma
maldio. Ele baixou-se e pegou numa concha do solo
do deserto.
     - Isto um dia j foi um mar - disse.
     - J tinha reparado - respondeu o rapaz.
     O Alquimista pediu ao rapaz para colocar a concha
no ouvido. Ele tinha feito isso muitas vezes quando
era criana, e escutou o barulho do mar.
     - O mar continua dentro desta concha, porque  a
sua Lenda Pessoal. E jamais a abandonar, at que o
deserto se cubra novamente de gua.
     Depois montaram nos seus cavalos, e seguiram em
direco s Pirmides do Egipto.

     O Sol tinha comeado a descer quando o corao
do rapaz deu sinal de perigo. Estavam no meio de
gigantescas dunas, e o rapaz olhou para o Alquimista,
mas este parecia no ter notado nada. Cinco minutos
depois o rapaz viu dois cavaleiros  sua frente, as
silhuetas cortadas contra o Sol. Antes que pudesse
falar com o Alquimista, os dois cavaleiros transformaram-se em
dez, depois em cem, at que as gigantescas dunas ficaram
cobertas deles.
     Eram guerreiros vestidos de azul, com uma tiara
negra sobre o turbante. Os rostos estavam cobertos
por outro vu azul, deixando apenas os olhos  mostra.
     Mesmo quela distncia, os olhos mostravam a
fora das suas almas. E os olhos falavam em morte.

     Conduziram-nos para um acampamento militar
nas imediaes. Um soldado empurrou o rapaz e o
Alquimista para dentro de uma tenda. Era uma tenda
diferente das que tinha conhecido no osis; ali estava
um comandante reunido com o seu estado-maior.
     - So os espies - disse um dos homens.
     - Somos apenas viajantes - respondeu o Alquimista.
     - Vocs foram vistos no acampamento inimigo h
trs dias atrs. E conversaram com um dos guerreiros.
     - Sou um homem que caminha pelo deserto e conhece as
estrelas - disse o Alquimista. - No tenho informaes de
tropas, ou do movimento dos cls. Apenas guiava o meu amigo
at aqui.

     - Quem  o teu amigo? - perguntou o comandante.
     - Um alquimista - disse o Alquimista. - Conhece
os poderes da natureza. E deseja mostrar ao chefe a
sua capacidade extraordinria.
     O rapaz ouvia em silncio. E com medo.
     - O que faz um estrangeiro numa terra estrangeira?
- perguntou um outro homem.
     - Trouxe dinheiro para oferecer ao seu cl - respondeu o
Alquimista, antes que o rapaz dissesse qualquer palavra. E
pegando na bolsa do rapaz, entregou as moedas de ouro ao
chefe-supremo.
     O rabe aceitou em silncio. Dava para comprar
muitas armas.
     - O que  um Alquimista? - perguntou, finalmente,
o rabe.
     - Um homem que conhece a natureza e o mundo.
Se ele quisesse, destrua este acampamento apenas
com a fora do vento.
     Os homens riram. Estavam acostumados com a
fora da guerra, e sabiam que o vento no pode desferir um
golpe mortal. Dentro do peito de cada um, porm, os seus
coraes apertaram-se. Eram homens
do deserto e tinham medo dos feiticeiros.
     - Quero ver tal coisa - disse o chefe-supremo.
     - Precisamos de trs dias - respondeu o Alquimista. - E
ele vai transformar-se em vento, apenas para mostrar a fora
do seu poder. Se no conseguir, ns
oferecer-vos-emos humildemente as nossas vidas,
pela honra do seu cl.
     - No pode oferecer-me aquilo que j  meu - disse,
arrogante, o chefe-supremo.
     Mas concedeu os trs dias aos viajantes.

     O rapaz estava paralisado de terror. O Alquimista
teve que pux-lo pelo brao para que sassem da tenda.
     - No deixes que eles percebam o teu medo - disse.
- So homens corajosos, e desprezam os cobardes.
     O rapaz, porm, estava sem voz. S conseguiu falar
depois de algum tempo, enquanto caminhavam pelo
meio do acampamento. No havia necessidade de
priso: os rabes apenas lhes tiraram os cavalos. E
mais uma vez o mundo mostrou as suas muitas linguagens: o
deserto, antes um terreno livre e sem fim, era agora uma
muralha intransponvel.
     - O senhor deu todo o meu tesouro! - disse o rapaz.
- Tudo o que eu ganhei em toda a minha vida!
     - E para que te adiantaria isso, se tivesses que morrer?
- respondeu o Alquimista. - O teu tesouro salvou-te por trs
dias. Poucas vezes o dinheiro serve para adiar a morte.
     Mas o rapaz estava apavorado demais para ouvir
as palavras sbias. No sabia como transformar-se em
vento. No era um alquimista.
     O Alquimista pediu ch a um guerreiro, e colocou um
pouco nos pulsos do rapaz. Uma onda de tranquilidade
invadiu o seu corpo, enquanto o Alquimista dizia
algumas palavras que ele no conseguia compreender.
     - No te entregues ao desespero - disse o Alquimista, com
uma voz estranhamente doce. - Isso faz com que tu no consigas

conversar com o teu corao.
     - Mas eu no sei transformar-me em vento.
     - Quem vive a sua Lenda Pessoal, sabe tudo o que
precisa saber. S uma coisa torna um sonho impossvel: o medo
de fracassar.
     - No tenho medo de fracassar. Apenas no sei
transformar-me em vento.
     - Pois ters que aprender. A tua vida depende disso.
     - E se eu no conseguir?
     - Vais morrer por teres vivido a tua Lenda Pessoal. 
muito melhor do que morrer como milhes de pessoas,
que jamais souberam que a Lenda Pessoal existia.
     Mas no te preocupes. Geralmente a morte faz
com que as pessoas fiquem mais sensveis  vida.

     O primeiro dia passou. Houve uma grande batalha
nas imediaes, e vrios feridos foram trazidos para
o acampamento militar. Nada muda com a morte,
pensava o rapaz. Os guerreiros que morriam eram
substitudos por outros, e a vida continuava.
     - Poderias ter morrido mais tarde, meu amigo - disse o
guarda para o corpo de um seu companheiro de combate. -
Poderias ter morrido quando chegasse
a paz. Mas irias terminar morrendo de qualquer forma.
     No final do dia, o rapaz foi procurar o Alquimista.
Estava a levar o falco para o deserto.
     - No sei transformar-me em vento - repetiu o
rapaz de novo.
     - Lembra-te do que eu te disse: que o mundo  apenas
a parte visvel de Deus. E a Alquimia  simplesmente
trazer para o plano material a perfeio espiritual.
     - O que faz o senhor?
     - Alimento o meu falco.
     - Se eu no conseguir transformar-me em vento,
vamos morrer - disse o rapaz. - Para qu alimentar o
falco?
     - Tu  que vais morrer - disse o Alquimista. - Eu
sei transformar-me em vento.

     No segundo dia o rapaz foi para o alto de uma
rocha que ficava perto do acampamento. As sentinelas
deixaram-no passar; j tinham ouvido falar do bruxo que se
transformava em vento, e no queriam
chegar perto dele. Alm disso, o deserto era uma
grande e intransponvel muralha.
     Ficou o resto da tarde do segundo dia olhando o
deserto. Escutou o seu corao. E o deserto escutou o
seu medo.
     Falavam ambos a mesma lngua.

     No terceiro dia o chefe-supremo reuniu-se com
os principais chefes.
     - Vamos ver o rapaz que se transforma em vento - disse
ele ao Alquimista.
     - Vamos v-lo! - respondeu o Alquimista.
     O rapaz conduziu-os at ao lugar onde tinha estado
no dia anterior. Ento pediu que todos se sentassem.
     - Isto vai demorar um pouco - disse o rapaz.

     - No temos pressa - respondeu o chefe. - Somos
homens do deserto.

     O rapaz comeou a olhar o horizonte  sua frente.
Havia montanhas ao longe, havia dunas, rochas, e
plantas rasteiras que insistiam em viver onde a sobrevivncia
era impossvel. Ali estava o deserto, que ele tinha percorrido
durante tantos meses, e de que, mesmo assim, s conhecia uma
parte muito pequena. Nesta pequena parte ele tinha encontrado
ingleses, caravanas, guerras de cls, e um osis com cinquenta
mil tamareiras e trezentos poos.
     - O que queres aqui hoje? - perguntou-lhe o deserto. - J
no nos contemplmos o suficiente ontem?
     - Nalgum ponto guardas a pessoa que eu amo - disse o
rapaz. - Ento, quando olho as tuas areias contemplo-a tambm.
Quero voltar para ela e preciso
da tua ajuda para transformar-me em vento.
     - O que  o Amor? - perguntou o deserto.
     - O Amor  quando o falco voa sobre as tuas areias.
Porque para ele tu s um campo verde, e ele nunca
volta sem caa. Conhece as tuas rochas, as tuas dunas,
e as tuas montanhas, e tu s generoso para com ele.
     - O bico do falco tira pedaos de mim - disse o
deserto. - Durante anos cultivo a sua caa, alimento-a com a
pouca gua que tenho, mostro-lhe onde est a comida. E um dia,
o falco desce do cu, justamente
quando eu ia sentir a carcia da caa sobre as minhas
areias. Ele leva aquilo que eu criei.
     - Mas foi para isso que tu criaste a caa - respondeu
o rapaz. - Para alimentar o falco. E o falco alimentar o
homem. E o homem alimentar um dia as tuas areias, de onde a
caa tornar a surgir. Assim se move o mundo.
     -  isso o Amor?
     -  isso o Amor, sim.  o que faz a caa transformar-se
em falco, o falco em homem e o homem de novo em deserto. 
isto que faz o chumbo transformar-se em ouro; e o ouro voltar
a esconder-se sob a terra.
     - No entendo as tuas palavras - disse o deserto.
     - Ento entende que nalgum lugar das tuas areias,
uma mulher me espera. E para isso, tenho que
transformar-me em vento.
     O deserto ficou em silncio por alguns instantes.
     - Eu dou-te as minhas areias para que o vento
possa soprar. Mas sozinho, no posso fazer nada.
Pede ajuda ao vento.

     Uma pequena brisa comeou a soprar. Os chefes
olhavam o rapaz ao longe, falando uma linguagem
que eles no conheciam.
     O Alquimista sorria.
     O vento chegou perto do rapaz e tocou o seu rosto.
Tinha escutado a sua conversa com o deserto, porque
os ventos sabem sempre tudo. Percorrem o mundo sem
um lugar onde nascer e sem um lugar onde morrer.
     - Ajuda-me - disse o rapaz ao vento. - Certo dia
escutei em ti a voz da minha amada.
     - Quem te ensinou a falar a linguagem do deserto
e do vento?

     - O meu corao - respondeu o rapaz.
     O vento tinha muitos nomes. Ali chamava-se
Siroco, porque os rabes acreditavam que ele vinha
de terras de gua abundante, onde habitavam homens de pele
negra. Na terra distante de onde vinha o rapaz, chamava-se
Levante, porque acreditavam
que trazia as areias do deserto e os gritos de guerra
dos mouros. Talvez num lugar mais distante dos
campos de ovelhas, os homens pensassem que o
vento nascia na Andaluzia. Mas o vento no vinha
de lugar nenhum, e no ia para lugar nenhum, e por
isso era mais forte do que o deserto. Um dia os
homens poderiam plantar rvores no deserto, e at
mesmo criar ovelhas, mas jamais iriam conseguir
dominar o vento.
     - Tu no poders ser vento - disse o vento. - Somos
de naturezas diferentes.
     - No  verdade - disse o rapaz. - Conheci os
segredos da Alquimia, enquanto errava pelo mundo
contigo. Tenho em mim os ventos, os desertos, os
oceanos, as estrelas, e tudo o que foi criado no UnIverso.
Fomos feitos pela mesma Mo, e temos a mesma Alma.
Quero ser como tu, penetrar em todos os cantos, atravessar os
mares, tirar a areia que cobre o meu tesouro, trazer para
perto a voz da minha amada.
     - Ouvi a tua conversa com o Alquimista no outro
dia - disse o vento. - Ele falou que cada coisa tem a
sua Lenda Pessoal. Os seres humanos no podem
transformar-se em vento.
     - Ensina-me a ser vento por alguns instantes - disse
o rapaz. - Para que possamos conversar sobre as
possibilidades ilimitadas dos homens e dos ventos.
     O vento era curioso, e aquilo era uma coisa que ele
no conhecia. Gostaria de conversar sobre aquele
     assunto, mas no sabia como transformar um homem
em vento. E ele que conhecia tanta coisa! Construa
desertos, afundava navios, derrubava florestas inteiras, e
passeava por cidades cheias de msica e de rudos estranhos.
Achava que era ilimitado, e no
entanto ali estava um rapaz dizendo que ainda havia
mais coisas que um vento podia fazer.
     -  a isto que chamam Amor - disse o rapaz, ao ver
que o vento estava quase a ceder ao seu pedido. -Quando
se ama  que se consegue ser qualquer coisa da Criao.
     - Quando se ama no temos necessidade nenhuma de
     entender o que acontece, porque tudo passa a acontecer
 dentro de ns, e os homens podem transformar-se em
vento. Desde que os ventos ajudem,  claro.

     O vento era orgulhoso, e ficou irritado com o que
     o rapaz dizia. Comeou a soprar com mais velocidade,
levantando as areias do deserto. Mas finalmente      teve que
reconhecer que, mesmo tendo percorrido o mundo
inteiro, no sabia como transformar um homem em vento. E no
conhecia o Amor.
     - Enquanto passeava pelo mundo, notei que muitas pessoas
falavam de Amor a olhar para o cu - disse o vento, furioso
por ter que aceitar as suas limitaes. - Talvez seja melhor

perguntar ao cu.
     - Ento ajuda-me - disse o rapaz. - Enche este lugar
de poeira, para que eu possa olhar o Sol sem ficar cego.
     O vento ento soprou com muita fora, e o cu ficou cheio
de areia, deixando apenas um disco dourado no lugar do Sol.
     No acampamento estava a ficar difcil enxergar.
Os homens do deserto j conheciam aquele vento.
Chamava-se Simum, e era pior que uma tempestade
no mar - porque eles no conheciam o mar. Os cavalos
relinchavam, e as armas comearam a ficar cobertas de areia.
  No rochedo, um dos chefes virou-se para o chefe-supremo, e
disse:
     - Talvez seja melhor pararmos com isto.
     Eles j quase no podiam divisar o rapaz. Os rostos
estavam cobertos pelos lenos azuis, e os olhos agora
exprimiam apenas espanto.
     - Vamos parar com isto - insistiu outro chefe.
     - Quero ver a grandeza de Al - disse com respeito
o chefe-supremo. - Quero ver como um homem se
transforma em vento.
     Mas anotou mentalmente o nome dos dois homens
que tinham tido medo. Assim que o vento parasse,
ia destitu-los dos seus comandos, porque os homens
do deserto no sentem medo.

     - O vento disse-me que tu conheces o Amor - disse
o rapaz ao Sol. - Se conheces o Amor, conheces tambm a Alma
do Mundo, que  feita de Amor.
     - Daqui de onde estou - disse o Sol - posso ver a
Alma do Mundo. Ela comunica com a minha alma, e
ns, juntos, fazemos as plantas crescerem e as ovelhas
caminharem em busca de sombra. Daqui de onde
estou - e estou muito longe do mundo - aprendi a
amar. Sei que, se eu me aproximar um pouco mais
da Terra, tudo que est nela morrer, e a Alma do
Mundo deixar de existir. Ento contemplamo-nos e
queremo-nos, e eu dou-lhe vida e calor, e ela d-me
uma razo para viver.
     - Tu conheces o Amor - repetiu o rapaz.
     - E conheo a Alma do Mundo, porque conversamos muito
nesta viagem sem fim pelo Universo. Ela fala-me que o seu
maior problema  que at hoje, s
os minerais e os vegetais entenderam que tudo  uma
coisa s e nica. E para isso, no  preciso que o ferro
seja igual ao cobre, e que o cobre seja igual ao ouro.
Cada um cumpre a sua funo exacta nesta coisa nica,
e tudo seria uma Sinfonia de Paz se a Mo que escreveu
tudo isto tivesse parado no quinto dia da criao.
     Mas houve um sexto dia - disse o Sol.
     - Tu s sbio porque vs tudo  distncia - respondeu o
rapaz. - Mas no conheces o Amor. Se no houvesse um sexto dia
da criao, no existiria o homem, e o cobre
seria sempre cobre, e o chumbo seria sempre chumbo. Cada um
tem a sua Lenda Pessoal,  verdade, mas um dia esta Lenda
Pessoal ser cumprida. Ento  preciso transformar-se
em algo melhor, e ter uma nova Lenda Pessoal, at que a Alma do Mundo seja realmente uma coisa s e nica.
     O Sol ficou pensativo e resolveu brilhar mais forte. O

vento, que estava a gostar da conversa, soprou
tambm mais forte, para que o Sol no cegasse o rapaz.
     - Para isso existe a Alquimia - disse o rapaz. - Para que
cada homem procure o seu tesouro, e o encontre,
e depois queira ser melhor do que foi na sua vida
anterior. O chumbo cumprir o seu papel at que o
mundo no precise mais de chumbo; ento ele
dever transformar-se em ouro.
     Os Alquimistas fazem isso. Mostram que, quando
procuramos ser melhores do que somos, tudo  nossa
volta se torna melhor tambm.
     - E por que  que dizes que eu no conheo o Amor?
- perguntou o Sol.
     - Porque o Amor no  estar imvel como o deserto,
nem correr o mundo como o vento, nem ver tudo de
longe, como tu. O Amor  a fora que transforma e
melhora a Alma do Mundo. Quando penetrei nela pela
primeira vez, achei que era perfeita. Mas depois vi que
era um reflexo de todas as criaturas, e tinha as suas
guerras e as suas paixes. Somos ns que alimentamos
a Alma do Mundo, e a terra onde vivemos ser tanto
melhor ou pior, quanto ns formos melhores ou piores.
A  que entra a fora do Amor, porque quando
amamos, sempre desejamos ser melhores do que somos.
     - O que queres tu de mim? - perguntou o Sol.
     - Que me ajudes a transformar-me em vento - respondeu o
rapaz.
     - A Natureza conhece-me como a mais sbia de
todas as criaturas - disse o Sol. - Mas no sei como
transformar-te em vento.
     - Com quem devo falar, ento?
     Por um momento o Sol ficou imvel. O vento estava
a ouvir, e a espalhar por todo o mundo que a sua sabedoria era
limitada. Todavia, no tinha forma de fugir daquele rapaz, que
falava a Linguagem do Mundo.
     - Conversa com a Mo que escreveu tudo - disse o Sol.

     O vento gritou de contentamento, e soprou com
mais fora do que nunca. As tendas comearam a ser
arrancadas da areia, e os animais soltaram-se das suas
rdeas. No rochedo, os homens agarravam-se uns aos
outros para no serem atirados para longe.

     O rapaz virou-se ento para a Mo que Tudo Tinha
Escrito. E ao invs de falar qualquer coisa, sentiu que
o Universo ficava em silncio, e ficou em silncio
tambm.
     Uma fora de Amor jorrou do seu corao, e o
rapaz comeou a rezar. Era uma orao que nunca
tinha feito antes, porque era uma orao sem palavras
e sem pedidos. No estava a agradecer pelas ovelhas
terem encontrado um pasto, nem a implorar para
vender mais cristais, nem a pedir para que a mulher
que tinha encontrado estivesse a aguardar a sua volta.
No silncio que se seguiu, o rapaz entendeu que o
deserto, o vento, e o sol tambm buscavam os sinais
que aquela Mo tinha escrito, e procuravam cumprir
os seus caminhos e entender o que estava escrito

numa simples esmeralda. Sabia que aqueles sinais
estavam espalhados na Terra e no Espao, e que na
sua aparncia no tinham qualquer motivo ou significado, e que
nem os desertos, nem os ventos, nem os sis, e nem os homens
sabiam porque tinham sido criados. Mas aquela Mo tinha um motivo para tudo isto, e s ela era capaz de operar milagres, de transformar oceanos em desertos, e homens em
vento. Porque s ela entendia que um desgnio maior
empurrava o Universo a um ponto onde os seis dias
da criao se transformariam na Grande Obra.
  E o rapaz mergulhou na Alma do Mundo, e viu
que a Alma do Mundo era a parte da Alma de Deus,
e viu que a alma de Deus era a sua prpria alma.
  E que podia, ento, realizar milagres.

     Simum soprou naquele dia como nunca soprara. Durante
muitas geraes os rabes contaram entre si a lenda de um
rapaz que se tinha transformado em vento, quase destruindo um
acampamento militar, e desafiado o poder do mais importante
chefe de guerra do deserto.
     Quando o Simum parou de soprar, todos olharam
para o lugar onde o rapaz estava. Este no estava mais
ali; estava junto a uma sentinela quase coberta de
areia, e que vigiava o outro lado do acampamento.
  Os homens estavam apavorados com a bruxaria.
S duas pessoas sorriam: o Alquimista, porque tinha
encontrado o seu discpulo certo, e o chefe-supremo,
porque o discpulo tinha compreendido a glria de Deus.
     No dia seguinte, o chefe-supremo despediu-se do
rapaz e do Alquimista, e ordenou que uma escolta
os acompanhasse at onde os dois quisessem.

     Caminharam o dia inteiro. Ao anoitecer, pararam
em frente de um mosteiro copta. O Alquimista
dispensou a escolta, e apeou-se do cavalo.

     - Daqui para a frente vais sozinho - disse o Alquimista.
- So apenas trs horas at s Pirmides.
     - Obrigado - disse o rapaz. - O senhor ensinou-me a
Linguagem do Mundo.
     - Eu apenas recordei o que j sabias.
     O Alquimista bateu  porta do mosteiro. Um
monge todo vestido de preto veio atender. Conversaram alguma
coisa em copta, e o Alquimista convidou o rapaz a entrar.
    - Pedi que me deixassem usar um pouco a cozinha
- disse ele.
     Foram at  cozinha do mosteiro. O Alquimista
acendeu o fogo, e o monge trouxe um pouco de
chumbo, que o Alquimista derreteu dentro de um
vaso de ferro. Quando o chumbo se tornou lquido,
o Alquimista tirou do saco aquele estranho ovo de
vidro amarelado. Raspou uma tira do tamanho de
um fio de cabelo, envolveu-a em cera, e meteu-a na
panela com o chumbo.
     A mistura adquiriu uma cor vermelha, como o
sangue. O Alquimista ento tirou a panela do fogo e
deixou-a esfriar. Entretanto, conversava com o monge
a respeito da guerra dos cls.

     - Esta guerra vai durar muito - disse para o monge.
     O monge estava aborrecido. Fazia tempo que as
caravanas estavam paradas em Gizeh, esperando que
a guerra acabasse.
     - Mas seja feita a vontade de Deus - disse o monge.
     - Que assim seja! - respondeu o Alquimista.
     Quando a panela acabou de esfriar, o monge e o
rapaz olharam deslumbrados: o chumbo tinha secado
na forma circular da panela, mas j no era chumbo.
Era ouro.
     - Aprenderei a fazer isto algum dia? - perguntou
o rapaz.
     - Esta foi a minha Lenda Pessoal, e no a tua - respondeu
o Alquimista. - Mas queria mostrar-te que  possvel.
     Caminharam de novo at  porta do convento. Ali,
o Alquimista dividiu o disco em quatro partes.
     - Esta  para si - disse ele, estendendo uma parte
para o monge. - Pela sua generosidade com os peregrinos.
     - Estou a receber um pagamento alm da minha
generosidade - respondeu o monge.
     - Jamais repita isso. A vida pode escutar, e dar-lhe
menos da prxima vez.
     Depois aproximou-se do rapaz.
     - Esta  para ti. Para pagar o que deixaste com o
chefe-supremo.
     O rapaz ia a dizer que era muito mais do que tinha
deixado com o chefe-supremo. Mas como tinha
ouvido o comentrio do Alquimista para o monge,...
ficou calado.
     - Esta  para mim - disse o Alquimista, guardando
uma parte. - Porque tenho que voltar pelo deserto, e
existe uma guerra entre os cls.
     Ento pegou no quarto pedao e entregou-o tambm ao
monge.
     - Esta  para este rapaz. Caso ele necessite.
     - Mas eu vou em busca do meu tesouro - disse o
rapaz. - Estou perto dele agora!
     - E tenho a certeza que irs encontr-lo - falou o
Alquimista.
     - Ento porqu isto?
     - Porque j perdeste duas vezes, com o ladro e
com o chefe-supremo, o dinheiro que conseguiste na
tua viagem. Eu sou um velho rabe supersticioso, que
acredito nos provrbios da minha terra. E existe um
provrbio que diz:
     Tudo o que acontece uma vez, pode nunca mais
acontecer. Mas tudo o que acontece duas vezes, acontecer
certamente uma terceira.
     Montaram nos seus cavalos.

     - Quero contar-te uma histria sobre sonhos - disse o
Alquimista.
     O rapaz aproximou o seu cavalo.
     - Na antiga Roma, na poca do imperador Tibrio,
     vivia um homem muito bom, que tinha dois filhos:
     um era militar, e quando entrou para o exrcito, foi
     enviado para as mais distantes regies do Imprio.
O outro filho era poeta, e encantava toda a Roma com

os seus belos versos.
     Certa noite, o velho teve um sonho. Um anjo aparecia para
lhe dizer que as palavras de um dos seus filhos seriam
conhecidas e repetidas no mundo inteiro, por todas as geraes
vindouras. O velho homem acordou agradecido e chorou naquela
noite, porque a vida era generosa, e tinha-lhe revelado uma
coisa que qualquer pai teria orgulho de saber.
     Pouco tempo depois, o velho morreu ao tentar
salvar uma criana que ia ser esmagada pelas rodas
de uma carruagem. Como se tinha comportado de
maneira correcta e justa em toda a sua vida, foi directo
para o cu, e encontrou-se com o anjo que lhe tinha
aparecido no sonho.
     - O senhor foi um homem bom - disse-lhe o anjo.
- Viveu a sua existncia com amor, e morreu com
dignidade. Posso realizar agora qualquer desejo que
tenha.
     - A vida tambm foi boa para mim - respondeu
o velho. - Quando me apareceu num sonho, senti que
todos os meus esforos estavam justificados. Porque
os versos do meu filho ficaro na memria dos
homens pelos sculos vindouros. Nada tenho a pedir
para mim; todavia, todo o pai se orgulharia de ver a
fama de algum que ele cuidou quando criana e
educou quando jovem. Gostaria de ver, no futuro
distante, as palavras do meu filho.
     O anjo tocou no ombro do velho, e os dois foram
projectados para um futuro distante. Em volta deles
apareceu um lugar imenso, com milhares de pessoas,
que falavam numa lngua estranha.
     O velho chorou de alegria.
     - Eu sabia que os versos do meu filho poeta eram
bons e imortais - disse para o anjo, entre lgrimas. -
Gostaria que me dissesse qual das suas poesias estas pessoas
esto repetindo.
     O anjo ento aproximou-se do velho com carinho,
e sentaram-se num dos bancos que havia naquele
imenso lugar.
     - Os versos do seu filho poeta foram muito populares em
Roma - disse o anjo. - Todos gostavam, e se      divertiam com
eles. Mas quando o reinado de Tibrio acabou, os seus versos
tambm foram esquecidos.
Estas palavras so do seu filho que entrou para o
exrcito.
     O velho olhou surpreendido para o anjo.
     - O seu filho foi servir num lugar distante, e tornou-se
centurio. Era tambm um homem justo e bom. Certa tarde, um
dos seus servos ficou doente, e estava
a morrer. O seu filho, ento, ouviu falar de um rabi
que curava os doentes, e andou dias e dias em busca
deste homem. Enquanto caminhava, descobriu que o
homem que estava procurando era o Filho de Deus.
Encontrou outras pessoas que tinham sido curadas por
ele, aprendeu os seus ensinamentos, e mesmo sendo
um centurio romano converteu-se  sua f. At que
certa manh chegou perto do Rabi.
     - Contou-lhe que tinha um servo doente. E o Rabi
prontificou-se a ir at sua casa. Mas o centurio era

um homem de f, e olhando no fundo dos olhos do
Rabi, compreendeu que estava mesmo diante do
Filho de Deus, quando as pessoas em volta deles se
levantaram.
     - Estas so as palavras de seu filho - disse o anjo
ao velho. - So as palavras que ele disse ao Rabi
naquele momento, e que nunca mais foram esquecidas. Dizem:
Senhor, eu no sou digno que entreis na minha morada, mas
dizei uma s palavra e o meu servo
ser salvo.

     O Alquimista fez avanar o seu cavalo.
     - No importa o que faa, cada pessoa na Terra
est sempre representando o papel principal da
Histria do mundo - disse ele. - E normalmente no
sabe disso.
     O rapaz sorriu. Nunca tinha pensado que a vida
pudesse ser to importante para um pastor.
     - Adeus - disse o Alquimista.
     - Adeus - respondeu o rapaz.

     O rapaz caminhou duas horas e meia pelo deserto,
procurando escutar atentamente o que o seu corao dizia. Era
ele que lhe iria revelar o local exacto onde o tesouro estava
escondido.      Onde estiver o teu tesouro, ali estar tambm
o teu corao, dissera o Alquimista.
     Mas o seu corao falava de outras coisas. Contava
com orgulho a histria de um pastor que tinha deixado
as suas ovelhas para seguir um sonho que se repetira
duas noites. Contava da Lenda Pessoal, e de muitos
homens que fizeram isso, que foram em demanda de
terras distantes ou de mulheres bonitas, enfrentando
os homens da sua poca com os seus preconceitos e
conceitos. Falou durante todo aquele tempo de viagens,
de descobertas, de livros e de grandes mudanas.
     Foi quando ia comear a subir uma duna - e s
naquele momento - que o seu corao sussurrou ao
seu ouvido: est atento ao lugar onde chorares,
porque nesse lugar estou eu, e nesse lugar est o teu
tesouro.
     O rapaz comeou a subir a duna lentamente. O cu,
coberto de estrelas, mostrava de novo uma lua cheia;
tinham caminhado durante um ms pelo deserto. A
lua iluminava tambm a duna, num jogo de sombras,
que fazia com que o deserto parecesse um mar cheio
de ondas, e que o rapaz se lembrasse do dia em que
soltara livremente o cavalo pelo deserto, dando ao
Alquimista o sinal que ele esperava. Finalmente a lua
iluminava o silncio do deserto, e a jornada que fazem
os homens que buscam tesouros.
     Quando, depois de alguns minutos, chegou ao topo
da duna, o seu corao deu um salto. Iluminadas pela
luz da lua cheia e pelo branco do deserto, erguiam-se
majestosas e solenes as Pirmides do Egipto.
     O rapaz caiu de joelhos e chorou. Agradecia a Deus
por ter acreditado na sua Lenda Pessoal, e por ter
encontrado certo dia um rei, um mercador, um ingls,
e um alquimista. Sobretudo, por ter encontrado uma

mulher do deserto, que lhe tinha feito entender que
o Amor jamais vai separar o homem da sua Lenda Pessoal.
     Os muitos sculos das Pirmides do Egipto
contemplavam, do alto, o rapaz. Se ele quisesse, podia
agora voltar ao osis, pegar em Ftima, e viver como
simples pastor de ovelhas. Porque o Alquimista vivia
no deserto, mesmo compreendendo a Linguagem do
Mundo, mesmo sabendo transformar chumbo em
ouro. No tinha que mostrar a ningum a sua cincia
e a sua arte. Enquanto caminhava em direco  sua
Lenda Pessoal, tinha aprendido tudo o que precisava,
e tinha vivido tudo o que tinha sonhado viver.
     Mas chegara ao seu tesouro, e uma obra s est
completa quando o objectivo  atingido. Ali, naquela
duna, o rapaz chorara. Olhou para o cho e viu que,
no local onde tinham cado as suas lgrimas, um
escaravelho passeava. Durante o tempo que passara
no deserto, tinha aprendido que, no Egipto, os escaravelhos
eram o smbolo de Deus.      Ali estava mais um sinal. E o
rapaz comeou a cavar, depois de se lembrar do mercador de cristais; ningum conseguiria ter uma Pirmide no seu quintal, mesmo que amontoasse pedras toda a sua vida.

     Durante a noite inteira o rapaz cavou no lugar
marcado, sem encontrar nada. Do alto das Pirmides,
os sculos contemplavam-no, em silncio. Mas o
rapaz no desistia: cavava e cavava, lutando com o
vento, que muitas vezes tornava a trazer a areia de
volta para o buraco. As suas mos ficaram cansadas,
depois feridas, mas o rapaz acreditava no seu corao.
E o seu corao dissera para cavar onde as suas
lgrimas cassem.
     De repente, quando estava a tentar tirar algumas
pedras que tinham surgido, o rapaz ouviu passos.
Algumas pessoas aproximaram-se dele. Estavam
contra a lua, e o rapaz no podia ver-lhes os olhos,
nem os rostos.
     - O que ests a a fazer? - perguntou um dos vultos.
     O rapaz no respondeu. Mas sentiu medo. Tinha
agora um tesouro para desenterrar, e por isso tinha
medo.
     - Somos refugiados da guerra dos cls - disse outro
vulto. - Precisamos saber o que escondes a. Precisamos de
dinheiro.
     - No escondo nada - respondeu o rapaz.
     Mas um dos recm-chegados agarrou-o e puxou-o para fora
do buraco. Outro comeou a revistar-lhe os bolsos. E
encontraram o pedao de ouro.
     - Ele tem ouro - disse um dos salteadores.
     A lua iluminou a face do que o estava a revistar, e
ele viu, nos seus olhos, a morte.
     - Deve haver mais ouro escondido no cho - disse outro.
     E obrigaram o rapaz a cavar. O rapaz continuou a
cavar, e no havia nada. Ento comearam a bater no
rapaz. Espancaram-no at aparecerem no cu os primeiros raios
de Sol. A sua roupa ficou em frangalhos, e ele sentiu que a
morte estava prxima.
     De que adianta o dinheiro, se tiver que morrer?

Poucas vezes o dinheiro  capaz de livrar algum da
morte, dissera o Alquimista.
     - Estou procurando um tesouro! - gritou finalmente o
rapaz. E mesmo com a boca ferida e inchada das pancadas,
contou aos salteadores que tinha
sonhado duas vezes com um tesouro escondido junto
das Pirmides do Egipto.
     O que parecia ser o chefe ficou longo tempo em
silncio. Depois falou para um deles:
     - Podes deix-lo. Ele no tem mais nada. Deve ter
roubado este ouro.
     O rapaz caiu com o rosto na areia. Dois olhos
procuraram os seus; era o chefe dos salteadores. Mas
o rapaz olhava para as Pirmides.
     - Vamos embora - disse o chefe para os outros.
Depois, virou-se para o rapaz:
     - Tu no vais morrer - disse. - Vais viver e aprender que
um homem no pode ser to estpido. A, nesse lugar onde tu
ests, eu tambm tive um sonho
repetido h quase dois anos atrs. Sonhei que devia
ir at aos campos da Espanha, procurar uma igreja
em runas onde os pastores costumavam dormir com
as suas ovelhas, e onde havia um sicmoro crescendo
dentro da sacristia, e que se eu cavasse na raiz desse
sicmoro, haveria de encontrar um tesouro
escondido. Mas eu no sou estpido para atravessar
um deserto s porque tive um sonho repetido.
     Depois foi-se embora.
     O rapaz levantou-se com dificuldade, e olhou mais
uma vez para as Pirmides. As Pirmides sorriam
para ele, e ele sorriu em resposta, com o corao
repleto de felicidade.
     Tinha encontrado o tesouro.

                                  EPLOGO

     O rapaz chamava-se Santiago. Chegou  pequena
igreja abandonada quando j estava quase a
anoitecer. O sicmoro ainda continuava na sacristia,
e ainda se podiam ver as estrelas atravs do tecto
semidestrudo. Lembrou-se que certa vez tinha
estado ali com as suas ovelhas, e que tinha sido uma
noite tranquila,  excepo do sonho.
     Agora estava sem o seu rebanho. Ao invs disso,
trazia uma p.
     Ficou muito tempo a olhar o cu. Depois tirou do
alforge uma garrafa de vinho, e bebeu. Lembrou-se
da noite no deserto, quando tinha tambm olhado as
estrelas e bebido vinho com o Alquimista. Pensou
nos muitos caminhos que tinha percorrido, e a
maneira estranha de Deus lhe mostrar o tesouro. Se
no tivesse acreditado em sonhos repetidos, no tinha
encontrado a cigana, nem o rei, nem o salteador,
nem... bom, a lista  muito grande. Mas o caminho
estava escrito pelos sinais, e eu no tinha como errar,
disse para si mesmo.
     Sem se aperceber adormeceu e, quando acordou, o
Sol j ia alto. Ento comeou a escavar a raiz do sicmoro.

     Velho bruxo, pensava o rapaz. O senhor sabia
de tudo. At deixou um pouco de ouro para que eu
pudesse voltar at esta Igreja. O monge riu quando
me viu voltar em frangalhos. No podia ter-me poupado a isso?
     No - escutou o vento dizer. - Se eu te tivesse
contado, no terias visto as Pirmides. So muito
bonitas, no achas?
     Era a voz do Alquimista. O rapaz sorriu e continuou a
cavar. Meia hora depois, a p bateu em algo slido. Uma hora
depois ele tinha diante de si um
ba cheio de velhas moedas de ouro espanholas.
Havia tambm pedrarias, mscaras de ouro com
penas brancas e vermelhas, dolos de pedra cravejados de
brilhantes. Peas de uma conquista que o pas j tinha
esquecido h muito tempo, e que o conquistador se esquecera de
contar a seus filhos.      O rapaz tirou Urim e Tumim do
alforge. Tinha-os utilizado apenas uma vez, quando estava, certa manh, num mercado. A vida e o seu caminho
estiveram sempre cheios de sinais.
     Guardou Urim e Tumim no ba de ouro. Faziam
parte do seu tesouro, porque recordavam um velho
rei que jamais tornaria a encontrar.
     Realmente a vida  generosa para quem vive a
sua Lenda Pessoal, pensou o rapaz. Ento lembrou-se de que
tinha que ir at Tarifa, e dar um dcimo daquilo tudo 
cigana. Como so espertos os ciganos, pensou. Talvez fosse
porque viajavam tanto.
     Mas o vento voltou a soprar. Era o Levante, o vento
que vinha de frica. No trazia o cheiro do deserto,
nem a ameaa de invaso dos mouros. Ao invs disso,
trazia um perfume que ele conhecia bem, e o som de
um beijo - que chegou devagar, devagar, at parar
nos seus lbios.
     O rapaz sorriu. Era a primeira vez que ela fazia
isto.
     - Estou indo, Ftima - disse ele.

                                    FIM

                         O ALQuImISTA e A CRTICA

     Publicado em cerca de 50 pases, como a Frana e Itlia,
a Inglaterra e Srvia, Romnia e Japo, Eslovnia e Crocia,
Estados Unidos e Israel, China e Rssia, as vendas conjuntas
no esto longe dos dez milhes de exemplares. Direitos de
adaptao ao cinema comprados pela Warner, e que deve ser
rodado este ano sob a direco de Claude Lelouch.

                            *******************

     "Tal como em 1994, Coelho  o grande vencedor. O
Alquimista      ,
aps 84 semanas, ainda mantm o quarto lugar com a sua demanda
inocente da verdade profunda que pode ser encontrada no ntimo
de cada um."

     Paris-Match, Frana - Jan.1996


     "Um conto simples e frtil."

                     Cosmopolitan, Japo - Abril 1995


     "O Alquimista  uma viagem com qualidades espirituais que
combina uma histria real e linear com aspectos filosficos da
vida e do mundo."

Razgledi, Eslovnia - Dez. 1995


     "Ponteadas por toda a histria e iluminadas num estilo
potico esto metforas e interiorizaes profundas que
estimulam a imaginao e transportam o leitor numa viagem
fantstica da alma.  uma histria inspiradora que ajudar as
pessoas a iniciar uma nova vida, ou refrescar as mentes de
quem se cansou da sua vida. De cada vez que relermos o livro
encontraremos nele novas realizaes."

     YoMiuRi-SHiNeuN, Japo - Jun.1995


     "O Alquimista de Coelho  um livro acerca do conhecimento
prprio e da lealdade ao nosso sonho. Traz  memria O
Principezinho de Saint-Exupry e O Profeta de Khalil Gibran,
bem como as parbolas bblicas."

     Gazeta Wborcza, Polnia - Dez.1995


     "Apesar de algumas crticas cidas tem sido glorificado
em muitos peridicos: Um hino  esperana, aos sonhos, ao
futuro, ao amor.  provavelmente o que ns hoje mais
necessitamos. ; Uma filosofia de vida onde cada um pode
encontrar princpios Zen, Budistas, Judaico-Cristos, ou o que
quer que se chame quando uma ideia conduz  descoberta de si
prprio.; O Alquimista deu-nos o sentido da vida. Lida com a
nossa humanidade, a nossa demanda eterna acerca do "ns".; A
Lenda Pessoal      , a pedra angular de O Alquimista, torna-se
o smbolo desta busca, a ideia central que tornou este
best-seller aquilo que  hoje..."

      Le Journal du Dimanche, Frana -Jul.1995


     "O Alquimista  uma linda e comovente histria com um
sabor extico... pode concordar ou no com a filosofia de
Paulo Coelho, mas  de qualquer maneira um conto que conforta os nossos coraes tanto como as nossas almas."


     Bergensnvisen, Noruega - Dez.1995


     "A linguagem simblica encontra-se ao longo de toda a
histria, escrita de tal maneira que no fala  nossa razo
mas sim ao nosso corao."

     Primorslce Novice, Eslovnia - Dez.1995


     "A histria da busca da riqueza oculta (O Alquimista)
passa a ser a parbola da dimenso profunda da existncia
humana.
Santiago  um heri universal."

     Saca GrzAuovA, Literrai Novinp, Checoslovquia -1991


     "Paulo Coelho exibe a espantosa virtude da transparncia
que torna a sua escrita um regato fresco serpenteando ao longo
de uma luxuriante floresta, uma via de energia que
inadvertidamente conduz o leitor a si prprio, em direco 
sua misteriosa e
longnqua alma."

     Figaro Littraire, Frana - Maio 1994


     "Finalmente um livro (O Alquimista) que fala com alegria
e simplicidade de conhecimentos de outrora, tratados de uma
maneira to enigmtica e aborrecida."

     DAvID LuczYN, revista Einbliclc, Alemanha - Agosto 1991



     O Alquimista  a histria de
um jovem que tem um sonho
repetido com um tesouro oculto
guardado perto das Pirmides do
Egipto.
     O rapaz resolve seguir o
seu sonho, enfrenta as maiores
dificuldades, atravessa desertos e
defronta-se com os grandes
mistrios que acompanham o
Homem desde o comeo dos
tempos: os sinais de Deus, a
Lenda Pessoal que cada um de
ns tem que viver, a misteriosa
Alma do Mundo, onde qualquer
pessoa pode penetrar se ouvir a
voz do seu corao.
     O Alquimista  um texto
simblico. No decorrer das suas
pginas, Paulo Coelho transmite
o que aprendeu a respeito da lquimia afirmando que a
linguagem da Alquimia  uma linguagem dirigida ao corao, e
no  razo.
Diz o Autor: "Descobri
a Lenda Pessoal e os Sinais de
Deus, verdades que o meu raciocnio se recusava a aceitar por
causa da sua simplicidade. Descobri que atingir a Grande Obra
no  tarefa de poucos, mas de
todos os seres umanos sobre a

face da Terra.  claro que nem
sempre a Grande obra vem sobre
a forma de um ovo e de um frasco com lquido, mas todos ns
podemos - sem qualquer sombra
de dvida - mergulhar na Alma do mundo".


                               Novembro 1996




